
O desencontro, a vida, a arte e seus encontros, por Gleice Bueno
Alexandre Sequeira é o fotógrafo que eu sempre sonhei em ser: viajante, sensível, atento, inteligente e talentoso. Ele faz da câmera um instrumento de aproximação com o outro e, por meio das imagens que resultam desses encontros, expressa e desperta afeto. É sobre o encontro com esse artista e dele com o mundo que este post vai falar. Mas, antes, eu preciso contar uma outra história…
A notícia do TEDxAmazônia, A Florista e a gravidez da minha primeira filha chegaram a minha vida ao mesmo tempo. Tempo intenso e delicioso de criação. Sem saber direito como contribuir com a organização do evento, ofereci o meu fazer, de fotógrafa e jornalista, para documentá-lo. Planos feitos e muito entusiasmo.
Acontece que início de gestação nem sempre é fácil e quase me vi desistir. Foi quando apareceu o convite para integrar A Florista, projeto da minha querida e generosa Dani Scartezini, que eu já havia tido a honra de inaugurar. Fizemos os postais e as camisetas para presentear os Tedxters e achei que minha participação terminaria por aí.
Meu corpo, no entanto, tremia só de pensar na floresta e nas pessoas incríveis que sabia que estariam por lá. Esse desejo me fez deixar pra trás traumas, medos e algumas recomendações de não viajar para a Amazônia no início da gravidez. Fui confiante e inteira, com os dois corações que batem forte dentro de mim, para aquele encontro.
Desencontro
Impossível descrever as sensações experimentadas naqueles dois dias. Difícil relatar tudo o que foi aprendido nas relações estabelecidas por lá, mas me propus a compartilhar a experiência que vivi da maneira mais inesperada, a palestra do fotógrafo Alexandre Sequeira, justamente a que não pude assistir.
Tive que sair do auditório para beber um pouco de água e na volta encontrei as portas fechadas. Tentei argumentar – sabendo não ter razão – que precisava estar lá dentro, que enfrentei muitas coisas por aquele momento, que não era justo ficar sem a experiência que eu mais queria… Ouvir! Foi quando percebi o tradutor pendurado no pescoço e pude, mesmo do lado de fora, participar do encontro com o Alexandre.
Ouvi, como quem devora a coisa mais gostosa do mundo, cada palavra, imaginando as imagens que ele mostrava, me emocionando com as histórias dos moradores de Nazaré do Mocajuba* e, principalmente, aproximando minha alma daquela outra alma, cujos olhos os meus não podiam ver. Quando a palestra terminou, os amigos me encararam com a tristeza de saber que eu havia perdido algo que não poderia, que não dava pra recuperar. Eu tinha as palavras e o sentimento dele, mas…
Fiquei procurando uma razão sobrenatural para ter saído do auditório naquele momento e decidi encontrar um motivo real que compensasse. Foi quando uma amiga propôs procurá-lo no intervalo (as delícias e oportunidades que o TEDx proporciona). Sou um pouco tímida, mas a vergonha desapareceu assim que vi os olhos que tanto queria. Alê prometeu contar, para mim e minha filha ou filho, seu processo de criação.
No instante daquela promessa pensei que essa história devia ser compartilhada aqui, em A Florista, e ele doce e generosamente concordou. Fiz ao Alexandre algumas perguntas para tentar conhecê-lo melhor, curiosidades sobre a formação e composição de um olhar tão afetuoso e inteligente.
Queria muito que tivesse sido uma conversa, frente a frente, e espero que um dia tenhamos essa oportunidade. Em breve, a gente poderá ver no site do TEDxAM o vídeo da palestra que eu perdi. Aqui, as fotografias e as palavras de Alexandre Sequeira revelam a extrema sensibilidade desse artista no encontro com o outro e com o mundo.
TEDxAmazônia – Alexandre Sequeira reencontra o sentido da fotografia – Nov.2010 from TEDxAmazônia on Vimeo.



De onde você veio, Alexandre?
Nasci em Belém do Pará, mas tenho um espírito meio andarilho. Gosto de conhecer o novo. Passei certo tempo em Brasília, alguns anos em SP e, mais recentemente, dois anos em Belo Horizonte, onde fiz um mestrado em Arte e Tecnologia. Independente de estabelecer base em algum local, estou sempre me deslocando por aí, desde pequenos vilarejos isolados a grandes centros urbanos desse mundão afora. Nunca me senti “de um lugar” apenas. Adoro ser provocado a sair daquela letargia que, muitas vezes, a rotina nos impõe.
O que mais me arrebata em seu trabalho é o interesse e o amor que o ser humano parece te despertar. O que fez você desenvolver tamanha sensibilidade?
Acho que, em geral, o brasileiro é bastante afetuoso, mas credito o que sou à minha família. Venho de uma família que nunca se privou de rir ou chorar junta. Passamos por muitas alegrias e dificuldades (como tantas outras famílias brasileiras) e, nessas situações, aprendíamos a externar o que sentíamos e a perceber o que o outro sentia. Eu acho que a sensibilidade surge desse exercício permanente de se manter atento ao mundo que nos cerca – postura que, a meu ver, não é exclusiva do artista, mas de qualquer pessoa que não pretende estar aqui apenas “de passagem”. Para o artista, creio que essa percepção mais aguçada é indispensável, por ser o meio pelo qual ele constrói ao longo da vida um arquivo geral, um grande baú de referências, as quais ele pode lançar mão na hora de formular uma determinada questão através de seu trabalho. Mas é claro que, para servir de insumo à arte, a vivência tem que ser processada e depurada pelo estudo. Como lembra Mario Pedrosa, a experiência estética, ao contrário das outras formas de conhecimento, é da ordem da intuição, mas essa “apreensão imediata” requer estudo, ao longo do qual se prepara e cultiva a sensibilidade.
Você é arquiteto de formação. Vem daí seu interesse pelos lugares e pelas relações que neles se estabelecem?
Acho que sofremos influências de uma série de experiências e questões com as quais nos deparamos ao longo da vida. Muito antes de sequer pensar em universidade ou escolher arquitetura como um curso de graduação, lembro que, ao viajar de carro com minha família, ia sempre com os olhos fixos na janela, devorando cada palmo de terra que passava veloz pela minha frente. É claro que posteriormente, tomei conhecimento de uma série de outras camadas de significação que esses lugares agregam – valores que talvez já me fascinassem desde pequeno, mesmo sem eu sequer saber de seu sentido mais específico. Sem dúvida, a arquitetura me trouxe uma série de informações que hoje vejo claramente em meu trabalho. Na época em que fiz vestibular, não tinha muita certeza de que a arte seria minha principal área de atuação profissional (embora desde então já adorasse desenhar e pintar), e talvez por isso, acabei escolhendo arquitetura, que me pareceu, naquele momento, uma área de convergência de alguns interesses.
Por que a fotografia? Quando essa história começou?
A fotografia surgiu bem depois. Meus primeiros contatos estavam relacionados ao design gráfico, atividade que desenvolvi por alguns anos em que morei em São Paulo – logo após a conclusão de minha graduação em arquitetura. Nessa época, pensava a fotografia estritamente como instrumento capaz de solucionar questões específicas da área que atuava. Foi só depois de voltar à Belém, e participar de um curso no FOTOATIVA (associação que reúne um grande número de fotógrafos da cidade), que comecei a vislumbrar as relações entre a fotografia e o que eu buscava como um trabalho mais autoral no campo das artes. Hoje, refletindo sobre o que faço, percebo a contribuição que cada uma dessas áreas me trouxe (a arquitetura, o design gráfico, a fotografia), e não me arrependo – pelo menos em relação a isso -, de nenhum passo dado.
Você escolhe seus trabalhos ou eles te escolhem?
Costumo dizer que meus trabalhos surgem desse prazer por me deslocar, por conhecer outros lugares e pessoas. Mas isso não quer dizer que qualquer lugar que eu vá, resultará em um novo trabalho. Depende dos encontros, das relações que se estabelecem. E se algo me toca, aí sinto que devo ficar mais tempo ali. Caso contrário, será apenas mais um lugar que conheci. Meus trabalhos, em geral, surgem do inesperado, do fluir dos acontecimentos.
O que te traz mais satisfação, seu processo de trabalho ou o que ele revela?
Adoro quando me sinto mergulhar em um novo trabalho. Às vezes sequer percebo que o trabalho já começou. Quando me dou conta, já estou completamente envolvido e parece que tudo conspira a favor, convertendo-se em possibilidades poéticas. É muito bom! Mas aí vem a justa articulação entre as relações afetivas que se estabelecem e elementos que animam esse convívio, capazes de transmitir a dimensão do acontecido. Essa articulação nem sempre é fácil e requer muito carinho, zelo. É um momento em que me divido entre viver os acontecimentos, e ler muito, pensar. Percebo que meus últimos trabalhos resultaram em uma quase desmaterialização no que se refere a resultados. A experiência vivida se converte na obra propriamente dita, e sua forma final é a de uma história para contar. Mas não creio que isso seja uma via de mão única. Trata-se apenas do reconhecimento do que cada experiência pode oferecer. Pode ser que novos trabalhos retomem uma solução final mais formal.
Ainda que cada projeto seja singular e pareça ter metodologia e técnica específicas, é possível descrever algo que esteja sempre presente em seu processo criativo?
Costumo ouvir de várias pessoas que entram em contato com meus trabalhos, que um ponto que os une é a rede de relações de afeto que se estabelece. Concordo que esse pode ser realmente um ponto em comum. Por mais que o elemento indutor de uma determinada pesquisa seja alguma questão que vem da literatura, da filosofia, ou de um acontecimento aparentemente banal, ele se resolve, acima de tudo, no cuidado com o outro. Na justa adequação entre uma aproximação carinhosa e a devida distância que respeita a individualidade de cada um. Qualquer que seja o método, ele deve se converter em atitudes, gestos, palavras, silêncio, e na calma de deixar que as coisas aconteçam no tempo que tem de acontecer.
Em Nazaré do Mocajuba, trabalho profundo e poético, você une de forma simbiótica o tema e a técnica. Como surgiu a incrível idéia de inserir as imagens dos moradores em seus próprios objetos?
Como disse, não tenho uma idéia certa do que pode vir a acontecer no decorrer de minhas pesquisas. No caso da utilização dos tecidos/objetos pessoais como suportes para os retratos dos moradores da vila de Nazaré do Mocajuba, ela surgiu de minha gradativa aproximação com a intimidade dos lares dessas pessoas com quem eu convivia. Ao entrar nas casas, me deparava com objetos como cortinas que separavam os ambientes, de uma estampa que em muito se referia ao seu dono. Por vezes, percebia a silhueta de pessoas que se deslocavam no ambiente contíguo, projetadas na superfície dos tecidos desgastados pelo tempo. Eram imagens que me chegavam como sussurros, confidências daquelas pessoas queridas. Queria falar de uma relação com o lugar e com aquelas pessoas, e sabia que o tempo era um dado indispensável para tratar dessa questão. E aqueles tecidos, traziam esse dado em sua própria constituição – cada pequeno rasgado ou parte desbotada da estampa se referia a um tempo transcorrido. Foi só então que comecei a propor trocas: eu dava aos meus companheiros de projeto uma peça nova, e eles me davam a que havia no local. Isso aconteceu não apenas com cortinas, mas também com toalhas de mesa, lençóis, redes… E sobre cada uma delas, reproduzi a imagem fotográfica de seu dono em tamanho real.
Há muito interesse pela vida em seu trabalho, mas algo nele parece também versar sobre a morte. Que relação você estabelece entre a fotografia e a memória?
Essa é uma questão que está intimamente ligada aos fundamentos da fotografia: a imagem fotográfica como documento do desaparecimento ou, emprestando as palavras de Barthes, do que foi, do que aconteceu. Por outro lado, trata-se de um registro que permanentemente se renova a partir de cada nova apreciação. Há uma incompletude na fotografia, algo que escapa, que se coloca sempre para além do mero registro de um referente. Creio que, nesse sentido, justamente pela incapacidade de dar conta do momento que em vão tenta capturar, a fotografia paradoxalmente sugere o sentido mais nobre da memória: o sentido de retomada, pela permanente revisão que ela suscita. É através do contato com a imagem, que imprimimos sempre uma nova versão para o dado concreto, optando talvez pela fabulação como a melhor forma de resguardar o dado real.
E assim a vida segue seu curso.
Há uma influência metodológica da antropologia visual na sua fotografia?
Não sei se metodológica. Procuro, na medida do possível, me desarmar de qualquer conceito pré-estabelecido quando surge um novo trabalho. Por outro lado, sei que meu trabalho surge de um trânsito que estabeleço pelo tecido social, envolvendo uma, duas ou mais pessoas. Nesse sentido, os resultados mesclam escolhas pessoais com expressões que dizem respeito ao grupo do qual participo – não como artista/pesquisador, mas como mais um. Creio que o maior desafio está em estabelecer uma relação honesta entre essas instâncias. Não deixar que o olhar do artista se imponha sobre o contato mais espontâneo e desarmado.
Nem sempre é tarefa fácil para os fotógrafos transcender o anedótico. O que mais te interessa quando faz retratos?
Procuro estar sempre atento ao jogo que anima o ato fotográfico. No caso do retrato, o que mais importa não é a identidade, mas a alteridade secreta. É na contramão de uma idéia de identidade cristalizada e imutável que as discussões sobre retrato contemporâneo se situam. Emprestando mais uma vez as palavras de Barthes, é no ponto de encontro entre quatro “personagens”, que o retrato fotográfico se situa: aquele que o fotografado acredita ser; aquele que desejaria que os outros vissem nele; aquele que o fotógrafo acredita que ele seja; e aquele que o fotógrafo se serve para exibir sua arte. Não há nada de novo nesse sentido, esse jogo nos acompanha desde o surgimento da fotografia, e creio que estende para muito além dela, permeando todas as nossas relações sociais.
A arte é espelho?
Uma miragem talvez…Quem sabe um caleidoscópio? Creio que a relação entre arte e vida se dá muito menos pelo que a arte é capaz de nos fornecer como “verdade” ou um determinado ponto de vista que deva prevalecer. Acredito em seu poder de suscitar o encontro em um mesmo ponto entre infinitas formas de ver a mesma coisa. Nenhuma menos verdadeira que a outra.






Leia mais sobre os trabalhos de Alexandre Sequeira em “Nazaré do Mocajuba” e “Meu Mundo Teu”.

“Moça, não pode ir aí não!” – foi a frase (em alto e bom som) que me tirou do transe. Eu já tinha pulado uma cerca, sentado no chão e colocado as mãos pelas grades do viveiro onde estavam dois grandes macacos. Eu segurava na mão de um deles, enquanto seu rabo se enroscava com força no meu braço – foi difícil soltar quando ouvi o pito da bióloga Dayse Campista, responsável pelo zoológico que fica dentro do hotel que me hospedei durante o TEDxAmazônia.
Sou completamente apaixonada por animais e entrei em choque quando vi onças, macacos, araras lindas, presos em plena selva amazônica. Tanta cor e vida confinada a metros quadrados num lugar à perder de vista.
Chorando fui falar com Dayse. Disparei uma rajada de lamentos pelos animais transformados em entretenimento de gente. Eu tinha acabado de mergulhar no TEDxAmazônia que teve o tema “Qualidade de Vida para Todas as Espécies” e minha vontade era sair abrindo os cadeados e soltando todo mundo: os pássaros, para viverem a delícia do vento nas asas; os macacos, para se lançarem das árvores; os felinos para reinarem na mata fechada. Mal sabia eu que isso jamais aconteceria. Ou eles eram órfãos (suas mamães foram mortas por caçadores ou fazendeiros) ou foram apreendidos pelo IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente – vítimas do tráfico.
Dayse me explicou que, grande parte da fauna brasileira que hoje habita os zôos do país, foi parar lá pelo mesmo motivo: o especismo – a falta de respeito do homem pelas outras formas de vida. Pela ganância, pelo egoísmo… eu ficaria aqui horas reclamando, mas isso não adianta.
Só uma coisa adianta: nunca, NUNCA aceite um animal silvestre. Nunca, NUNCA permita que alguém que você conhece compre macacos, araras, cobras, onças, seres que tiveram a sorte de nascer no meio de uma natureza maravilhosa e o azar de cruzar com humanos ignorantes pelo caminho.
Como escreveu Paulo Leminski “ Liberdade é um vento onde tudo cabe”. E quem pode prender o vento?

Enquanto eu declarava meu amor eterno ao Curupira, Dayse perguntou: “Mas você não queria ter um, né?”. Engoli seco – lógico que eu queria ter um Curupira só pra mim. Mas quem ama, liberta e eu jamais seria tão egoísta.



2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade e pessoas do mundo inteiro estão trabalhando para proteger a riqueza natural do planeta, que é frágil e insubstituível. Dá uma olhada no www.diadabiodiversidade.com.br . Quanto mais a gente sabe sobre a vida, melhor ela fica :).
Aqui uma matéria muito/muito legal sobre o Curupira e a bióloga Dayse Campista. Ela adquiriu hábitos da espécie guariba para se transformar na mãe do “Curu”. Leia, você vai adorar.

“Generosos são tanto as pessoas que se sentem bem em dividir um tesouro com mais pessoas porque isso as fará bem, tanto quanto aquela pessoa que dividirá um tempo agradável para outros sem a necessidade de receber algo em troca.” (via wikipedia)
Desde que retornei do TedxAmazônia sofro (mais uma vez) de uma auto-observação severa sobre o meu fazer. Porém, dessa vez, além de analisar o meu profundamente, observo os fazeres à minha volta: das pessoas que conheço, convivo e também os de quem não conheço.
Confesso que precisei dessas duas semanas para entender o processo que estava vivendo e poder falar algo sobre tudo que recebi-sentí.
Todo mundo já falou sobre o conceito de “interdependência”, tão falado durante o TedxAmazônia.
A natureza fundamenta-se em tal conceito, que apenas revela o que deveria ser óbvio, mas não é: sim, somos uma cadeia, um dominó, uma corrente… qualquer um desses conceitos que fale sobre interligação, inter-relação, ou interação, que mostre como uma ação, ou alteração (desde a mais mínima, acredite) seja na flora, ou fauna, altera todo nosso sistema e claro, nós, espécie-humana, seremos a maior vítima de nós mesmos, se não tivermos consciência desse fenômeno. Isso sim é antropofagia, eu diria.
Mas, eu não quero falar sobre interdependência, nem sobre antropofagia (não diretamente). Quero falar sobre generosidade.
Passada essas duas semanas de “digestão”, posso dizer que o conceito sobre o qual eu mais aprendi nesses últimos dias foi sobre o de Generosidade.
“A natureza é tão generosa, que tudo nos oferece”- dizem por aí. Ao mesmo tempo ela expõe (sem dó): o desequilíbrio de uma espécie, é o de todas as outras e aí, ambiguamente mostra sua severidade e porque não? – justiça.
Porém, nossos olhos insistem em ver e não “enxergar”. Quando assistimos a destruição de uma espécie, ou, o sofrimento da natureza, à primeira-vista, o que se vê é uma lição sobre egoísmo, intolerância e ignorância. Porém, se aprofundarmos esse olhar, ou trocarmos a nossa lente crítica e pessimista, poderíamos observar uma lição de generosidade.
A natureza deixa claro que se agirmos com generosidade uns com os outros e para com ela, retribuirá em dobro, em triplo, numa proporção que talvez não tenhamos como mensurar agora. Durante a conferência TEDxAmazônia, o que assistimos foram histórias e mais histórias sobre pessoas generosas. Ou seja, pessoas cujo fazer diário é dedicarem-se ao outro, à natureza, à vida alheia. E o resultado? Qualidade de vida para todas as espécies do planeta. Ficou provado por “A+B” que a solução para um “mundo melhor” para se viver é colaborarmos uns com os outros, é juntar esforços, unir fazeres que se complementam e multiplicam o Bem. E, para mim, ficou claro que o que move tudo isso é uma única virtude: a generosidade. Gente que já provou o gosto de fazer o Bem e se alimentar dele e gostou tanto que fez virar uma “virose” que contagia àqueles que estão à volta. Eita, doença boa.
Fico pensando desde então, na tal da interdependência e no fato de que, sem a generosidade, é muito difícil ser sustentável, fazer algo que não seja autopredatório. Se percebêssemos que dependemos uns dos outros positivamente, como numa comunidade auto-sustentável, o mundo não seria melhor? E se, na sua pequena comunidade (sua empresa, sua família, ou no seu dia-a-dia) ficasse evidente que um ato de generosidade, pode trazer qualidade de vida para algo, ou alguém? E se você ensinasse ao seu filho essa virtude?
Não dá mais para ficar parado, de braços cruzados. O negócio é sério, gente. E, ao mesmo tempo, é mais fácil do que parece.
Numa dinâmica durante o TedxAmazônia, o palestrante Edgard, fundador do Instituto Elos e do programa Guerreiros sem Armas, deixou escancarado que temos como mobilizar alguém “para fazer o bem”, com apenas um mísero movimento. É. deu vergonha. Depressão, tudo o que você pode imaginar. Mas, da mesma maneira, temos sempre que fazer escolhas: ficar parado, deprimido, ou, usar a experiência para transformar e evoluir. Eu vou na segunda opção.



Enquanto o tempo voa e todo mundo quer chegar logo, há pessoas que fazem questão de não encurtar o caminho. E ir no seu ritmo. Leve o tempo que levar, dure o tempo que durar.
A Pat Brandstatter é meio assim, atemporal. Um jeito de menina, mas a certeza madura da importância do prazer em seu fazer. Ela é ilustradora e adora desenhar plantas e flores em papeis, madeiras, paredes e tecidos. Talvez, porque aprecie o transcorrer da natureza – ver a semente brotar, crescer, florescer… São dela as lindas ilustrações das camisetas e postais que A Florista e a Colmeia vão entregar como presente no TEDxAmazônia, que tem como tema “Qualidade de Vida para Todas as Espécies”.
E quanto tempo cada espécie leva para evoluir? Pat não tem pressa… Seu desejo é seguir se transformando.
Pat Brandstatter | Flores para Durar from A Florista on Vimeo.
“Fui uma criança tímida e introspectiva, passava muito tempo lendo e desenhando. As histórias me transportavam para universos mágicos e o desenho era um meio de experimentar, contemplar e me relacionar com o mundo.
Gosto de desenhar observando as formas, é um processo de encantamento e intersubjetivação. Muitas vezes, quando volto totalmente a atenção para um determinado objeto, seja vivo ou inanimado, com a intenção de representá-lo, entro quase em estado meditativo, as relações espaço/tempo são suprimidas e é como se aquela imagem que está nascendo mantivesse, juntas, a realidade do objeto em si e sua existência em mim. Através dela me reconheço e reconheço o outro em intimidade.
Tanto no desenho como na vida, procuro respeitar os movimentos naturais, as necessidades íntimas… Cada passo é uma pequena descoberta para a construção de sentido e, assim, não consigo visualizar fins de processos. É como se os meus desenhos, gravuras e pinturas nunca terminassem, paro por uma necessidade prática (um prazo de entrega, por exemplo), mas sinto que eles retomam de onde estavam para continuar seu caminho no próximo, que será só mais um dos infinitos passos. Me encantam os processos de transformação natural, a percepção de que o tempo registra sua ação nas faces da matéria e que cada um dos seus estados têm a sua beleza.
Acredito que temos que estar muito atentos para seguirmos o melhor caminho possível em tudo o que vamos fazer e, para mim, percebo que a melhor forma de isso acontecer é quando respeito as minhas necessidades interiores. Sinto que para serem verdadeiros a minha vida e aquilo que posso criar devo ter muita liberdade, a liberdade que não ultrapassa o espaço e o respeito pelo outro, mas que pode sim contrariar ensinamentos e desejos pré estabelecidos socialmente.
Percebo, através do meu próprio processo, que a arte pode ser um meio libertador e de sensibilização para uma aproximação das essências de si e do outro. Ainda pesquiso formas de dividir essa experiência com muitas pessoas, mas já fico muito feliz de poder expor um pouquinho dela aqui.
Gosto e me identifico muito com as filosofias do artista russo Wassily Kandinsky e do filósofo francês Henri Bergson, então reescrevi frases de ambos porque acredito que sintetizam uma parte importante do que penso sobre arte e vida…”
“Todos os procedimentos são sagrados, se são interiormente necessários”.
(KANDINSKY, Do Espiritual na Arte, 1996)
“Quanto mais aprofundamos na natureza do tempo, mais compreendemos que a duração significa invenção, criação de forma, elaboração contínua do absolutamente novo”.
(BERGSON, A Evolução Criadora,1979)



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A partir dessas ilustrações da Pat, A Florista se inspirou para fazer uma camiseta estampada e outros presentes especiais para os participantes do TedxAmazônia. Saiba mais sobre essa história, aqui.









Veja mais trabalhos da Pat*
* as fotos da Pat para esse post, são da Gleice Bueno(Dani Scartezini)
Ano passado, participei da primeira edição do TEDxSP. Em um sábado, nos reunimos com diversos pensadores brasileiros, de diferentes áreas de conhecimento, para falar sobre como o Brasil poderia contribuir para construir, na prática, um mundo melhor.
Foi um dia transformador, com muitas sensações, ou emoções, eu diria. Experimentei da impotência ao êxtase e senti alegria genuína ao ver e ouvir tantas histórias de pessoas que fazem sua parte para termos um mundo melhor. E o mais interessante foi perceber que esses “fazeres”, que às vezes mudam o mundo, variam do mais simples até o mais sofisticado em termos de estudos, pesquisas, etc.
O evento durou o dia inteiro e, ao longo dele, percebi nitidamente a transformação dos rostos durante as conversas nos intervalos, os questionamentos e sensações que latejavam. Para mim, o que aquela experiência transformou de mais evidente em todos – e talvez não seja por acaso que criamos esse blog :) – foi a relação de cada um com o seu “fazer”.
Arrisco dizer que todos, sem exceção, olharam para os seus crachás, que traziam o nome do lugar onde trabalhavam, e questionaram se “o fazer” deles era algo que poderia contribuir para um mundo melhor.
Eu fui uma dessas pessoas e afirmo que estar em um evento como os promovidos pelo TED é muito diferente de ler a respeito. A experiência é assimilada de outra forma e contagia.
Cá estamos. Após um ano do TEDxSP, nasceu A Florista. Sim, nós falamos sobre esse tal FAZER e exaltamos histórias de pessoas cujo fazer “faz bem” ao mundo e inspira os outros a seguir o mesmo caminho.
Quando fiquei sabendo do TEDxAmazônia, pensei: eu quero ir. Ou melhor: A Florista tem que ir! Quero beber daquilo de novo, quero ajudar, quero estar perto dessa gente :)
Liguei para a organização, mandei email. A resposta veio na hora e, como já era de se esperar, fomos recebidas da melhor maneira possível. Daí prá frente, foram só “boas respostas e bons sinais”. Criamos a oportunidade e oportunidade fez a hora, sabe?
“Mergulhei” na floresta amazônica, nas flores, no tema do TEDxAmazônia: “qualidade de vida para todas as espécies” e encontrei o que procurava na pesquisa “Impact of the hydraulic capacity of plants on water and carbon fluxes in tropical South America”, de Kevin Boyce, que diz:
“a transpiração das plantas com flores tem papel essencial na biodiversidade amazônica. Sem essas flores a floresta teria uma zona tropical úmida 80% menor que a atual”.
Confira aqui a entrevista exclusiva que Boyce deu para A Florista.
Essa história das flores da Amazônia nos inspirou tanto que, assim como o TED, quisemos espalhar essa idéia. Porém, somos “floristas” e nossas “flores” são pessoas e seus fazeres. Assim, cultivamos e arranjamos toda essa ideia para poder de alguma forma fazer com que levassem essa flor para casa.
Recebam nossas flores.
PS. Esse ano nosso crachá vai escrito : A Florista (!!!) YES!
Mobilize seus amigos e faça acontecer!
Incentive ideias e pessoas em que acredita.

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