Espinhos de rosas e perfume de jasmim


por Daniela Scartezini
Palavras, flor do dia

Literalmente recebemos uma flor, quando a Susana nos enviou esse texto. Imagino que depois de ler, vão concordar comigo se é ou não é uma flor “digna” de ser uma Flor do Dia. Liga não, se as lágrimas rolarem @–;—

Espinhos de rosas e perfume de jasmim, por Susana Paiva

Hoje as flores do seu jardim brotam sem você estar aqui.

Algumas memórias que me rodeiam têm o perfume do seu jasmim, outras, a dor dos
espinhos que muitas vezes te feriam.

Mas você, satisfeita e feliz, como alguém que recebera um presente, mostrava as marcas
que eles haviam feito: “São arranhões de rosas” – Me dizia. E eu simplesmente não entendia.

Hoje tento buscar em algum lugar uma resposta para retornar àquele tal sentido das coisas.

Das cores, das flores.

Quando me percebo, estou rezando!
E então a minha memória me faz voltar ao primeiro dia em que você me ensinou a rezar.

Frases simples, pequeninas e tão cheias de inocência. Eram palavras do tamanho do meu
tamanho, simples como meus sonhos, tão inocentes quanto as minhas crenças.

E que me faziam dormir em paz e segura de estar “segura” por um milagre vindo de tão
poucas palavras.

No dia mais triste de toda a minha vida, eu ainda rezei. Dessa vez, não para dormir e sim para
pedir que outro milagre pudesse vir.

Pedi a Deus tanta coisa, pedi para te levar sim, pedi para você ficar. E por fim, pedi que fosse
feita a vontade Dele.

Mas no fundo no fundo, pedia sem saber que Ele me fizesse pequenina novamente. E que você
voltasse a ficar grande como antigamente.

Mas nesse dia a pequenina era você, e ainda assim não cabia em minhas mãos. Eu não
consegui te segurar e fazer você ficar. Então, de um jeito criança comecei a chorar.

Você foi embora e eu nem sei pra onde, escorregou por entre meus dedos, deixei ir…

Ao sair depois de me despedir, senti minha história ficar para trás. Vi um pedaço meu fenecer,
e eu nada pude fazer.

Hoje, as flores do seu jardim ainda continuam brotando. Estranho! Porque você não está aqui.

Eu fico pensando que talvez os espinhos tivessem este fim, proteger as rosas para mim.

Ainda me lembro de uma vez em que perguntamos uma para a outra se existia um “outro
lugar” onde tudo pudesse continuar. Eu te disse que precisava existir, senão, não haveria
sentido “existir”.

E ainda hoje, quando dou por mim…

Ainda posso rezar aquelas pequeninas frases que você um dia me fez decorar.

Mas dessa vez eu peço para acreditar, que algum dia vou te reencontrar. E que valeu a pena
sentir a dor da sua partida, nunca da sua perda.

Como arranhões de rosas, certamente!

Pequenina que fico peço para compreender que não existe um fim. Até mesmo que eu me
sinta feliz por ter me ferido com os espinhos… Aqueles, das rosas do nosso jardim.

E que de modo tão simples assim, eu ainda continue rezando , acreditando no que vem depois
e nas coisas boas que podem continuar.

Para enfim, um dia encontrar este tal lugar, onde você certamente vai estar.
Com suas mãos sujas de terra e um sorriso largo a minha espera.

Satisfeita e feliz, plantando rosas e jasmins.


A foto é de uma das peças de Juliana Bolini, da exposição “Dona Vida”


Se você também tem alguma história, ou um fazer, que queira compatilhar com a gente, fique à vontade para nos enviar aqui. Será um prazer @–;—

Alice Ruiz, Adélia Prado | Poema ou oração?


por Daniela Scartezini
Fazer_visual, Palavras, as rosas falam, flor do dia

As poetas Alice Ruiz e Adélia Prado escreveram esses poemas que compartilhamos, hoje.

Na verdade, não sei se são poemas, ou orações :)

Penso: talvez fazer um poema seja mesmo como fazer uma oração.

Nunca havia pensado nisso. Coisas que a gente aprende :)

Olha só:

ROSAI POR NÓS

nossa senhora da flor roxa

rosai por nós

assim na vida como no chão

a primavera de cada ano

nos dai hoje

encantai nosso jardim

assim como encantamos

o do nosso vizinho

e não nos deixei cair em tentação

de esquecer tuas flores.


Alice Ruiz

SINAL NO CÉU:

É um tom de laranja

sobre os montes

um pensamento inarticulado

de que a Virgem

pôs o mundo no colo

e passeia com ele nos rosais.


Adélia Prado


Desenho de Cristina Balieiro, do blog amigo: http://www.ofemininoeosagrado.blogspot.com/, que diz sobre os poemas: “Colocar no papel minhas imagens internas é, para mim, quase um exercício físico que expressa o que sinto, o que penso e como vejo, algo ou alguém! É como se a energia psíquica de quisesse se fazer concreta!”

Luciana Sapia | Flores para comer


por Daniela Scartezini
Cozinha, flores

(com a alma!)

Era uma vez…

Uma menina de olhos misteriosos e falantes. Já mulher, formou-se em Ciências Sociais pela USP, pouco depois, foi estudar pedagogia Waldorf e se tornou professora e contadora de histórias. Anos se passaram e ela deu à luz à três lindos filhos: uma menina, a primogênita, um menino, o segundo e outra menina, a caçula. Mãe, fez, gerou e pariu suas crias em seu próprio ninho, digo… Casa.

A mulher possuía outros diversos dons: era artesã, cozinheira e… padeira! Seu nome é Luciana Sapia e ela é mesmo um exemplo de que é possível ser mulher, moderna, e manter vivo e presente o feminino essencial: intimamente ligado ao fazer e ao criativo.

Mas não esse feminino romântico que estamos acostumados a ouvir por aí. Mas o arquetípico, o feminino antigo, que dispõe de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora, uma geradora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior.

Quando chego em sua casa é assim: entre flores e enfeites de porta que ela mesmo faz, um de seus 3 filhos vêm junto dela abrir a porta. Sorriso sincero, um forte abraço e um cheiro delicioso no ar.

Na pequena casa de vila cor de rosa, tem sempre algo saindo do forno. E sem exageros, tudo é sempre – uma delícia! Aos recém-feitos 30 anos (!), sempre linda, ela recebe com café, bolos, sopinhas e mais recentemente a encontramos por lá, na cozinha, fazendo mais uma de suas artes com as mãos, que arrisco dizer, não poderia haver outra mais generosa para receber tudo que Luciana é : o pão.

Lú tem um ar de quem saiu dos anos 70, quer viver da sua arte, em comunidade, elevar o arquétipo do feminino banalizado pela mulher dos anos 90 e criar com a liberdade da mulher da era 2000. Tudo isso, não sei como e com qual magia, se transfere através de suas mãos para a massa e se revela quando somos servidos de um pão feito artesanalmente em sua padaria caseira.

Ela diz que não tem segredo: é o amor e a entrega com que faz seu pão. Diversas histórias já contaram sobre o encantamento do alimento que além de alimentar o corpo, alimenta a alma. É o alimento que carrega um sentimento, um sabor que desperta uma pessoa, um cheiro que recorda um tempo, uma textura que conforta. O alimento que tem alma. Como ela mesma diz : um alimento vivo!

A bíblia cita o “pão nosso de cada dia” umas 340 vezes – alimento sagrado, diário, feito pelas mulheres que cuidavam de suas famílias.

Tudo isso: feito com as mãos, uma arte, vivo, sagrado, natural, da terra, da família, alimento, saboroso, belo e cheio de histórias e fundamentos… assim é o pão da Lú e é por isso, que não poderia haver outro Fazer tão perfeito para ela.

E os pães feitos à mão por Luciana carregam histórias sobre todas essas histórias. Pura fartura de alimento para todos os sentidos.

Para se alimentar de amor.


Pão e Rosas!

(por Luciana Sapia | fotos Antonia Castro)

Com a chegada da maternidade me dei conta das minhas mãos. Trocando as fraldas de minha filhota, lhe acariciando… no banho, as mãos seguras amparando seu delicado corpinho, a massagem com óleo de camomila e depois as papinhas cozidas durante horas na panelinha de barro para iniciar a alimentação e ensiná-la a experimentar o mundo.

A parte do meu corpo que mais mudou com a gravidez foram minhas mãos – mãos maternas, mãos que tateiam o mundo buscando amor para oferecer ao filho recém chegado!

Sempre fui dona de muitas idéias, tive vontade de fazer inúmeras coisas, valia cozinhar, costurar, fazer boneca de lã, arrumar as flores num vaso bonito, pintar as paredes da casa com aquarela, ler poesia em voz alta, criar gatos de barro para ensinar as mãos do que é feito o mundo. A matéria e a alma! Permear a vida de graça, cores, sabores e saberes, ouvir histórias, dar ritmo ao corpo através da música…

O tempo todo estamos recriando a vida e o motivo pelo qual estamos aqui. É no fazer que libertamos nossos processos criativos!

Foi essa sensação que experimentei quando comecei a fazer pão. Alimentar a massa com o calor das minhas mãos é uma prece diária que vai se tecendo entre a bancada de madeira, a massa e o meu coração.

Misturando todos os ingredientes dentro da bacia vou recriando o mundo. A água cálida aquece minhas mãos e com movimentos suaves vou trabalhando a massa para trazer a força vital de cada alimento ali integrado. A alquimia acontece: farinha, açucar, sal, óleo e fermento agora numa massa unida, plácida e perfumada, já pronta para descansar e crescer. E como disse certa vez um padeiro amigo meu: o pão vem trazendo o sol da manhã! Brinco: pelas mãos do padeiro o dia começa a raiar…é hora de enrolar os pães. A massa é pesada e cada pão é enrolado com sabores especiais de castanhas, passas, grãos, raízes e o que mais quisermos criar para incrementar e saborear ainda mais nosso pãozinho integral. Forno acesso e um cheirinho gostoso de pão quentinho começa a invadir a casa convidando para um delícioso café da manhã!

Esse fazer diário e constante, fazer a mesma coisa todos os dias, e procurar fazer sempre melhor é uma qualidade meditativa do meu ofício. Esse fazer com presença total de espírito me organiza, me integra e me faz cada vez mais valorizar o que é realmente bom.

Assim é o pão da confraria – orgânico, verdadeiro e integral.

Nascida da cozinha da minha casa, tão viva, tão experimental, tão inteira, a padaria tem por princípio propor um novo-antigo conceito no ato de comer pão – reunir as pessoas ao redor da mesa para se satisfazerem desse alimento sagrado e ancestral que alimenta o corpo e a alma, reacendendo em cada um esse círculo humano e divino que é a confraria.

A Confraria requer o compromisso de seus confrades para poder girar. Através de assinaturas mensais, ofereço aos confrades produtos artesanais produzidos por mim e escolhidos a dedo para compor um café da manha saboroso e saudável, são pães, manteiga, bolos, biscoitos, geléias, queijos e quitutes para fortalecer e alegrar o dia e nutrir a alma!

Essa maneira de atuar no mundo, me permitiu resolver o dilema de muitas mães modernas: como trabalhar fora e cuidar dos meus filhos? Antes de ser padeira, era professora em um pequeno jardim de infância, o que ganhava não era suficiente para arcar com as despesas da vida,  e não queria estar ausente da vida cotidiana de meus filhos. Estar dentro do mercado de trabalho, em um “emprego” convencional, seguramente remunerado, me consumiria muitas horas diárias e seguramente não supriria minhas necessidades anímicas, não poderia ser tudo o que quero: ser mãe, mulher, amiga, cozinhar, pintar, plantar, dançar… ser verdadeiramente feliz. Foi quando comecei a fazer pão. Era apenas uma maneira de incrementar a renda mensal fazendo algo que eu gosto e oferecendo alguma coisa boa para as pessoas, logo percebi que se eu realmente quisesse poderia me bancar e ir muito fundo com essa história! Comprei o forno, ajeitei a cozinha, arrumei os pães num cesto e agora estamos aqui!  Assim, daqui, da minha casa, no aconchego do meu lar, ao lado dos meus filhos eu proponho á vc: quer um pão fresquinho?

OS SONHOS SÃO GRANDES….e a cada pão concretizo e alimento um pouco cada um deles!

Bora criar, fazer, amar, que com alma dá tudo certo!


Chá de rosas

Os sonhos são grandes

A Confraria requer o compromisso de seus confrades para poder girar © foto www.galeriaexperiencia.com.br

Saindo do forno

...quer um pão fresquinho?

ghi, geléia de figo, de damasco...

gui, geléia de figo, de damasco...

filhos à mesa

aceita uma torta?

tem biscoitinhos, granola...

com mel, fica uma delícia :)

tem um bolo de maracujá também, experimenta?

Para comer com a alma

... e com os olhos!

...um cheirinho gostoso de pão quentinho começa a invadir a casa convidando para um delícioso café da manhã!

Lú e Lia - a caçula e inspiração

Leva umas rosas alaranjadas para enfeitar

Bora criar, fazer, amar, que com alma dá tudo certo!


Para quem quer o “pão da Lú”:

http://confrariadopao.wordpress.com/

Luciana Sapia
Confraria do Pão
Pães Artesanais
(0xx11) 3297-4247 | 7616-3943

PS. Acompanhe os próximos posts! O “pão da Lú” vai se multiplicar e trazer mais idéias e processos prá todo mundo colocar a mão na massa e FAZER coletivamente!


  • http://www.tedxamazonia.com.br

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