
Onda (clique para ouvir e baixar)
Um sentido desperta o outro, inspira. E, quando a gente permite, sente por inteiro. Ao compartilhar seu olhar, o mar de Paula Marina provocou cócegas nos ouvidos de Laercio, que compôs a trilha “Onda” para o ensaio. Fez Dani colocar as mãos pra brincar e transformar de vez as cores da fotógrafa em aquarela, enquanto Karine mergulhou em palavras para compor um poema sinestésico. Ao compartilhar esses encontros, a gente te convida a também se deixar levar por essa história. Depois vem aqui nos contar!

A Ju tem um trabalho forte. Me fez chorar.
Me fez estranha de mim por um tempo, mas depois eu permiti. Eu me acolhi. E senti esse poema :-)
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MEU EU
Às vezes, Eu percebo o Meu corpo
Entendo como Ele anda, como Ele senta
Percebo como Ele se chateia quando cansa
E o quanto Ele é feliz quando dança
Eu vejo que, quando Ele corre, cria uma água que escorre
E que, quando Ele dorme, sua pele adormece
Eu tenho prazer quando Ele goza
Tenho orgulho quando Ele ganha um elogio
Fico triste quando Ele cai ou leva alguma outra pancada
Quando Ele dói, Eu me incomodo
Ele é tão forte, tão é vivo, tão perto, tão quente … gosto de saber que Ele é Meu
Mas, me completo quando me lembro que
Ele
Sou
Eu
(Dani Scartezini)
Ano passado, participei da primeira edição do TEDxSP. Em um sábado, nos reunimos com diversos pensadores brasileiros, de diferentes áreas de conhecimento, para falar sobre como o Brasil poderia contribuir para construir, na prática, um mundo melhor.
Foi um dia transformador, com muitas sensações, ou emoções, eu diria. Experimentei da impotência ao êxtase e senti alegria genuína ao ver e ouvir tantas histórias de pessoas que fazem sua parte para termos um mundo melhor. E o mais interessante foi perceber que esses “fazeres”, que às vezes mudam o mundo, variam do mais simples até o mais sofisticado em termos de estudos, pesquisas, etc.
O evento durou o dia inteiro e, ao longo dele, percebi nitidamente a transformação dos rostos durante as conversas nos intervalos, os questionamentos e sensações que latejavam. Para mim, o que aquela experiência transformou de mais evidente em todos – e talvez não seja por acaso que criamos esse blog :) – foi a relação de cada um com o seu “fazer”.
Arrisco dizer que todos, sem exceção, olharam para os seus crachás, que traziam o nome do lugar onde trabalhavam, e questionaram se “o fazer” deles era algo que poderia contribuir para um mundo melhor.
Eu fui uma dessas pessoas e afirmo que estar em um evento como os promovidos pelo TED é muito diferente de ler a respeito. A experiência é assimilada de outra forma e contagia.
Cá estamos. Após um ano do TEDxSP, nasceu A Florista. Sim, nós falamos sobre esse tal FAZER e exaltamos histórias de pessoas cujo fazer “faz bem” ao mundo e inspira os outros a seguir o mesmo caminho.
Quando fiquei sabendo do TEDxAmazônia, pensei: eu quero ir. Ou melhor: A Florista tem que ir! Quero beber daquilo de novo, quero ajudar, quero estar perto dessa gente :)
Liguei para a organização, mandei email. A resposta veio na hora e, como já era de se esperar, fomos recebidas da melhor maneira possível. Daí prá frente, foram só “boas respostas e bons sinais”. Criamos a oportunidade e oportunidade fez a hora, sabe?
“Mergulhei” na floresta amazônica, nas flores, no tema do TEDxAmazônia: “qualidade de vida para todas as espécies” e encontrei o que procurava na pesquisa “Impact of the hydraulic capacity of plants on water and carbon fluxes in tropical South America”, de Kevin Boyce, que diz:
“a transpiração das plantas com flores tem papel essencial na biodiversidade amazônica. Sem essas flores a floresta teria uma zona tropical úmida 80% menor que a atual”.
Confira aqui a entrevista exclusiva que Boyce deu para A Florista.
Essa história das flores da Amazônia nos inspirou tanto que, assim como o TED, quisemos espalhar essa idéia. Porém, somos “floristas” e nossas “flores” são pessoas e seus fazeres. Assim, cultivamos e arranjamos toda essa ideia para poder de alguma forma fazer com que levassem essa flor para casa.
Recebam nossas flores.
PS. Esse ano nosso crachá vai escrito : A Florista (!!!) YES!

Ela saiu do interior de São Paulo com apenas um sonho: aprender a voar. Mas não poderia ser literalmente “voar”; o vôo de Karine também tinha que transcender, transformar e libertar, tal qual o vôo da Fênix. Como ela faria isso? Através das palavras e da música. Foi na escrita e na música que a Karine, escritora e Dj, encontrou sua maneira de “voar”. Toda vez que me encontro com suas poesias, contos e mais recentemente com seus sets musicais, tenho a sensação que ela me oferece uma asa para que eu possa sentir o prazer de seu vôo, ou seria do vento no rosto? E transcendo, transformo, liberto.
Um dia, essa mulher me ofereceu um conto. Mal sabia ela o poder transformador de suas imagens. No conto “O Médico”, o escritor Rubem Alves diz que as imagens são a linguagem da alma. E Karine, nesse conto, transformou a minha. Imaginem que ao terminar o conto, disse-me assim: “…desejo que a florista do destino ponha a mào em cada folha da sua vida.”
Uma vez, ouvi de de uma grande contadora de histórias uma frase que me marcou muito: “… cada palavra que a menina dizia, era uma flor no vazinho da alma de cada um…”
Talvez depois de passear pela criação de Karine, você concorde comigo que essa “menina” poderia muito bem ser Karine.
Com vocês, o conto “A Florista”, por Karine Rossi.
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Tudo aconteceu num tempo – nem antigo nem moderno – quando o amor ainda era tema de todas as histórias.
Nessa época, uma florista bem moça perfumava a vila inteira com suas rosas, lírios e brincos-de-princesa (quase posso sentir … como é grande o poder da lembrança).
A florista subia as ladeiras escondida entre o cheiro das flores que ela mesmo plantava e colhia no quintal. O lugar não era grande, mas cada canto tinha tantas cores e fragrâncias que mais parecia um planeta-delicadeza.
Era uma jovem bonita, feliz e gentil, mas que tinha uma fraqueza: não sabia dizer não. Ah sim, claro… muita gente se aproveitava dela. Mesmo sem ter dinheiro, muitos lhe pediam as flores. E ela, a florista, sempre entregava… Sempre em troca de um sorriso.
Na descida da ladeira, a Florista viu um rapaz e – exatamente nessa hora – suas flores exalaram um cheiro tão forte que quase a fez cair tonta no chão. Recuperada do súbido, voltou a vê-lo. Baixou a cabeça. Ergueu-a de novo. Andou um pouco. Parou. Olhou para traz e se deu conta de que estava amando.
Pelas pontas dos pés descalços ela o seguiu. Descobriu sua casa e, todas as manhãs ainda escuras, voltava lá para florir a porta com suas melhores flores: as mais frescas, as mais bonitas, as mais cheirosas e as mais apaixonadas.
Dia após dia. Todos os dias.
Quando ela voltava na madrugada seguinte, as flores do dia passado já tinham sido recolhidas. E ela enchia tudo de novo de flores. Todos os dias.
Até que um dia ela voltou e ainda haviam flores por lá. Mesmo assim, ela floriu. E floriu todos os dias até que a rua inteira ficasse coberta de flores. Todos os dias.
Quando viu que ele se foi, tentou manter o sorriso. Mas o maço de flores que carregava murchou em seus braços. Desde esse dia, seu quintal viveu um inverno. Seco. Frio. Escuro. E a cidade inteira mudou; o perfume de petala adocicada, caule molhado e folha fresca se transformou em cheiro de gente com pressa, dinheiro amassado e romance rompido.
Mas o ciclo da vida sempre continua e ela voltou a sorrir. Escolheu as sementes mais ricas e plantou, uma-a-uma, na terra fértil do amanhã. As flores nasceram e ficaram prontas para seguir seu destino de embelezar as casas da cidade.
Num dia de muito azul e branco no céu, ela seguiu farta de flores. Vendeu quase todas: com algumas ganhou dinheiro, com muitas outras, sorrisos. No fim da tarde, só lhe restava uma flor: um único botão de rosa amarela. “Esta eu não vendo! Nem por todo o dinheiro do mundo, nem pelo mais belo sorriso”. E foi com a rosa para a casa, companheira agradável no caminho de volta. Aquela flor ela deu para si. Um carinho que cansou de esperar de alguém…
E foi nesse dia, quando aprendeu a dizer não, que – de longe – ela avistou um um homem alinhado no portão da sua casa. Sereno, camisa verde clara, chapéu de feltro branco… Se aproximou, cuidadosa, com medo de ouvir o que temia: “Boas tardes, senhorita florista… Vim para comprar esta flor”. Disse isso e abriu um sorriso tão lindo que a fez esquecer sua promessa. Sem demorar um segundo, ela lhe entregou.
Depois, com um pouco mais de demora, no momento seguinte ao de ver por dentro dos olhos dela, o homem lhe devolveu o botão. Foi incrível ver como ele se abriu durante a viagem entre as mãos… um percurso que durou a eternidade.
Ela reconheceu o cheiro dele. O sorriso. O cheiro era dele… ele estava de volta.
E isso foi tudo o que eu vi: o lindo fim de uma história em continuação.
Um momento tão sincero que me fez viver feliz para sempre.
Karine também uma pesquisadora de sonoridades e recentemente faz um trabalho como Dj. Você pode ouvi-lo no site Soundcloud. Esse Podcast “Flores” foi criado inspirado na A Florista! Muuuiito exclusivo e psicodélico, até :).
É colorido, charmoso, sonhador, platônico, perfumado, ousado… Hummm. Enfim, senhores, abram os ouvidos da alma e tenham um ótimo vôo!
Na real ou teoria, o que é poesia?
Eu não consigo explicar, só sei que é muito mais alto, largo e profundo
que os adornos da rima.
Poesia vem do latim POIESIS, que significa FAZER. E se fazer é poesia, fazer poesia é redundância (antes fosse na escrita, pois redundante é a vida que insiste em pensar sempre igual e não se descobre).
Portanto, poeme! A poesia emociona, respira, vivifica.
É a energia da ânsia da vida por si mesma.
Faça coisas impossíveis de explicar.
Pois a verdadeira poesia vai muito além das palavras. “
Karine Rossi

O livro-arte winterverno é uma parceria de Paulo Leminski com o poeta e artista João Suplicy (São Paulo: Iluminuras, 2001). É uma combinação de textos de Leminski com as imagens do artista plástico na configuração de haikais, ou poemas-desenhos - “a categoria mais plástica da poesia oriental”, segundo Blyth, escreve Rodrigo Garcia Lopes, com o intuito de “passar o perfume de uma idéia-emoção com brevidade, humor e sentido”. E continua: “ Os temas costumam ser os lances mais banais; coisas máximas vistas de um modo mínimo e vice-versa. Menos é mais. Por isso, tudo passa a impressão de um certo inacabamento, criando vazios que devem ser completados pelo leitor”. Trabalhos realizados no final da década de 80, mais precisamente a partir de 1988.
O haikai é uma pequena poesia com métrica e molde orientais, surgida no século XVI, muito difundida no Japão e vem se espalhando por todo o mundo durante este século. Com fundamento na observação e contemplação enfatizando o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza através da arte, sentimento este inerente a todo o ser humano. O mais tradicional poeta deste estilo é Matsuo Basho, monge Zen que aperfeiçoou o estilo e divulgou suas obras no final do século XVII.
Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.
Matsuo Basho (1644-1694)
Flor ofertada
Desabrocha na mão
Amor em botão
Vem sol, entra
É mais gozo que aparenta
Nessa pele, hoje sedenta
Que demorou pra entender
Que tipo de estrela é você
Karine Rossi
karinerossi@globo.com
@karinerossi
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