Liberdade Para Todas as Espécies


por Karine Rossi
as rosas falam, tedxamazônia

Esse é o Curupira, um macaquinho guariba encontrado com poucos dias de vida e totalmente debilitado. Sua mãe foi morta e ele não teria chance de sobreviver na selva sozinho. Não tem lugar pro Curupira no zôo. Então, Dayse leva ele pra casa toda noite.

“Moça, não pode ir aí não!” – foi a frase (em alto e bom som) que me tirou do transe. Eu já tinha pulado uma cerca, sentado no chão e colocado as mãos pelas grades do viveiro onde estavam dois grandes macacos.  Eu segurava na mão de um deles, enquanto seu rabo se enroscava com força no meu braço – foi difícil soltar quando ouvi o pito da bióloga Dayse Campista, responsável pelo zoológico que fica dentro do hotel que me hospedei durante o TEDxAmazônia.

Sou completamente apaixonada por animais e entrei em choque quando vi onças, macacos, araras lindas, presos em plena selva amazônica. Tanta cor e vida confinada a metros quadrados num lugar à perder de vista.

Chorando fui falar com Dayse. Disparei uma rajada de lamentos pelos animais transformados em entretenimento de gente. Eu tinha acabado de mergulhar no TEDxAmazônia que teve o tema “Qualidade de Vida para Todas as Espécies” e minha vontade era sair abrindo os cadeados e soltando todo mundo: os pássaros, para viverem a delícia do vento nas asas; os macacos, para se lançarem das árvores; os felinos para reinarem na mata fechada. Mal sabia eu que isso jamais aconteceria. Ou eles eram órfãos (suas mamães foram mortas por caçadores ou fazendeiros) ou foram apreendidos pelo IBAMA – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente – vítimas do tráfico.

Dayse me explicou que, grande parte da fauna brasileira que hoje habita os zôos do país, foi parar lá pelo mesmo motivo: o especismo – a falta de respeito do homem pelas outras formas de vida. Pela ganância, pelo egoísmo… eu ficaria aqui horas reclamando, mas isso não adianta.

Só uma coisa adianta: nunca, NUNCA aceite um animal silvestre. Nunca, NUNCA permita que alguém que você conhece compre macacos, araras, cobras, onças, seres que tiveram a sorte de nascer no meio de uma natureza maravilhosa e o azar de cruzar com humanos ignorantes pelo caminho.

Como escreveu Paulo Leminski “ Liberdade é um vento onde tudo cabe”.  E quem pode prender o vento?

Enquanto eu declarava meu amor eterno ao Curupira, Dayse perguntou: “Mas você não queria ter um, né?”. Engoli seco – lógico que eu queria ter um Curupira só pra mim. Mas quem ama, liberta e eu jamais seria tão egoísta.

Esse é o Feliz, um bicho preguiça que (ainda bem!) vai poder retornar a floresta! Não dá pra dizer o que senti quando ele se agarrou no meu corpo. Juro, a gente virou um só…

Explodi! Nunca senti tanta ternura …. VIVA OS ANIMAIS.

Meus dois amores: Curupira e Lalá (meu companheiro dessa e de outras vidas).

2010 é o Ano Internacional da Biodiversidade e pessoas do mundo inteiro estão trabalhando para proteger a riqueza natural do planeta, que é frágil e insubstituível. Dá uma olhada no www.diadabiodiversidade.com.br . Quanto mais a gente sabe sobre a vida, melhor ela fica :).

Aqui uma matéria muito/muito legal sobre o Curupira e a bióloga Dayse Campista. Ela adquiriu hábitos da espécie guariba para se transformar na mãe do “Curu”. Leia, você vai adorar.

A Florista na floresta


por Daniela Scartezini
as rosas falam, tedxamazônia

(Dani Scartezini)

Ano passado, participei da primeira edição do TEDxSP. Em um sábado, nos reunimos com diversos pensadores brasileiros, de diferentes áreas de conhecimento, para falar sobre como o Brasil poderia contribuir para construir, na prática, um mundo melhor.

Foi um dia transformador, com muitas sensações, ou emoções, eu diria. Experimentei da impotência ao êxtase e senti alegria genuína ao ver e ouvir tantas histórias de pessoas que fazem sua parte para termos um mundo melhor. E o mais interessante foi perceber que esses “fazeres”, que às vezes mudam o mundo, variam do mais simples até o mais sofisticado em termos de estudos, pesquisas, etc.

O evento durou o dia inteiro e, ao longo dele, percebi nitidamente a transformação dos rostos durante as conversas nos intervalos, os questionamentos e sensações que latejavam. Para mim, o que aquela experiência transformou de mais evidente em todos – e talvez não seja por acaso que criamos esse blog :) – foi a relação de cada um com o seu “fazer”.

Arrisco dizer que todos, sem exceção, olharam para os seus crachás, que traziam o nome do lugar onde trabalhavam, e questionaram se “o fazer” deles era algo que poderia contribuir para um mundo melhor.

Eu fui uma dessas pessoas e afirmo que estar em um evento como os promovidos pelo TED é muito diferente de ler a respeito. A experiência é assimilada de outra forma e contagia.

Cá estamos. Após um ano do TEDxSP, nasceu A Florista. Sim, nós falamos sobre esse tal FAZER e exaltamos histórias de pessoas cujo fazer “faz bem” ao mundo e inspira os outros a seguir o mesmo caminho.

Quando fiquei sabendo do TEDxAmazônia, pensei: eu quero ir. Ou melhor: A Florista tem que ir! Quero beber daquilo de novo, quero ajudar, quero estar perto dessa gente :)

Liguei para a organização, mandei email. A resposta veio na hora e, como já era de se esperar, fomos recebidas da melhor maneira possível. Daí prá frente, foram só “boas respostas e bons sinais”. Criamos a oportunidade e oportunidade fez a hora, sabe?

“Mergulhei” na floresta amazônica, nas flores, no tema do TEDxAmazônia: “qualidade de vida para todas as espécies” e encontrei o que procurava na pesquisa “Impact of the hydraulic capacity of plants on water and carbon fluxes in tropical South America”,  de Kevin Boyce, que diz:

“a transpiração das plantas com flores tem papel essencial na biodiversidade amazônica. Sem essas flores a floresta teria uma zona tropical úmida 80% menor que a atual”.

Confira aqui a entrevista exclusiva que Boyce deu para A Florista.

Essa história das flores da Amazônia nos inspirou tanto que, assim como o TED, quisemos espalhar essa idéia. Porém, somos “floristas” e nossas “flores” são pessoas e seus fazeres. Assim, cultivamos e arranjamos toda essa ideia para poder de alguma forma fazer com que levassem essa flor para casa.

Recebam nossas flores.

PS. Esse ano nosso crachá vai escrito : A Florista (!!!) YES!


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A Florista agradece a todos que colaboraram e colaboram (um especial para nosso programador querido: Camilo Saraiva) para que esse nosso “jardim” esteja acontecendo.

As flores e a floresta | Kevin Boyce


por Gleice Bueno
tedxamazônia

C. Kevin Boyce é professor adjunto da paleontologia do Departamento de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago. Foi “o fazer” desse pesquisador que inspirou A Florista a produzir as camisetas e os postais distribuídos no TEDxAmazônia. Ele é autor do estudo “Impact of the hydraulic capacity of plants on water and carbon fluxes in tropical South America”, que abordou a importância das plantas com flores (angiospermas) para manter a umidade da floresta.

As plantas de floração, segundo o paleontólogo, alimentam a atmosfera com quatro vezes mais água do que qualquer outro tipo de planta, graças ao seu processo de transpiração. É o que mantem viva a floresta. Ele nos conta aqui, com exclusividade, um pouco mais sobre essa história.

A Florista - How did your research born?

KB – I have always been interested in paleontology and have focused my work on plant fossils because they have a variety of unique advantages, including very detailed fossil preservation down to the cellular level and development and physiology that are relatively constrained and allow consideration of the biology of fossil plants in depth, that way we can explore their impact on the environment through time.

A Florista – Can we say that the flowers feed the Amazon’s rains and, consequently, the life of that ecosystem?

KB – Yes, we have been able to show that flowering plants feed about 4 times more water into the atmosphere than any other type of plant.

A Florista – How do they do it?

KB - Plants take CO2 from the sky and use it during photosynthesis to produce sugars.  However, they cannot avoid losing water in the process–as CO2 diffuses into the leaf through little pores, water diffuses out, a process called transpiration.  If they cannot replace the water fast enough, they have to shut the pores and photosynthesis has to stop until they open again.  So, the faster you can replace leaf water, the faster you can photosynthesize and grow.  We have been able to show that the density of water conducting veins in the leaf presents a tight control on the leaf’s ability to conduct water to the air and we have shown that flowering plants have both average and maximum densities of leaf veins that are four or five times those of any other plants.  And since leaf veins are preserved in fossils we can further say that flowering plants can conduct more water than any other plant that has ever existed.

A Florista - Globally, which would be the consequences if the flowered species in the Amazon were reduced or disappeared?

KB - We used computer climate models to estimate the impact of all of this water that transpires out of flowering plant leaves and found the impact was enormous, particularly in tropical South America where the area of everwet rainforest would decrease by 80% if all of the flowering plants were replaced with other plants.  The reason is that much of the rainfall that falls on a rainforest is actually recycled from that rainforest–the water rains down, the plants transpire the water back to the sky, and then it falls down again–and that recycling would not be nearly as efficient without flowering plants.

A Florista – In the case of Amazon, have the forest created the flowers or the flowers have created the forest?

KB – It is a little bit of both.  It is pretty clear that the flowering plants first evolved in the warm, wet conditions of a tropical rainforest, so rainforests did have to be around before flowering plants.  However, once they had evolved, flowering plants would have contributed to the expansion of those forests.

A Florista – Can you estimate how many species of angiosperms exist? Are they the majority in the Amazon rainforest? Is it a fact that these plants return more water to the atmosphere than other types of plants?

KB – I don’t know how many are specifically in the Amazon, but in general there are many hundreds of thousands of angiosperm species.  At least 250,000 have been described and estimates of how many species have not yet been described can be as large or larger.  Yes, they are the majority of species in the Amazon, the very large majority.  Science is always open to new information, and there is certainly lots of variance among different plants (a cactus is a flowering plant too!) but, yes, I think it is safe to say it is a fact that a flowering plant leaf will, on average, return much more water to the atmosphere than would be true of any other group of plants.


  • http://www.tedxamazonia.com.br

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