Eu conheci Eliza numa noite de samba, em São Paulo. Me lembro bem da energia, do colorido e dos passos daquela menina de pele desbotada (como ela mesmo diz), sambando como quem carrega uma legítima neguinha, lá dentro.
Nos vimos mais algumas vezes e continuei a ouvir suas histórias. Uma amiga, um amigo de outro amigo e lá vinham as histórias de Eliza. Histórias que há um bom tempo fazem parte do meu imaginário e me encantam. Suas histórias quase sempre trazem cores, cheiros, vida, descobertas… Até que me deparei com sua última história: Eliza fez uma viagem de 7 meses pela África, que vai virar um documentário que discute mulheres contemporâneas e choque cultural. E a história não pára por aí. O documentário está sendo financiado coletivamente. Isso mesmo: você, eu, qualquer um, mas qualquer um mesmo, pode mover-se, mobilizar-se, contribuir para que Eliza conte essa história, suas reflexões de como podemos construir um mundo melhor e mais diverso, livre de pré-conceitos. Além de colaborar para que seu feito seja realizado, quem contribui participa ativamente da realização do documentário e ainda é recompensado com pequenos mimos, como fotos lindas da sua viagem, feitas por ela mesma. Os presentes são lindos, mas depois de oferecer o incentivo, para mim (que óbvio já fiz o meu) recompensa mesmo, é sentir que posso sim construir um mundo melhor com pequenos gestos como esse que Eliza nos propõe e tantos outros que há por aí. Coletivamente podemos viajar e realizar um sonho coletivo. É ou não é, um sonho de todos nós que haja mais respeito e menos preconceito?
Te convido a conhecer o fazer de Eliza, ler a história que ela nos contou exclusivamente e depois, por que não? FAZER COLETIVAMENTE, incentivando o projeto. Vamos fazer juntos?
“… Porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica… As histórias são as que permitem transformar o passado em presente e que, também, permitem transformar o distante em próximo. O que está distante em algo próximo, possível e visível.” Eduardo Galeano, no programa Sangue Latino, do Canal Brasil (outra história que Eliza me contou :)
Africanas from movere.me on Vimeo.
Eliza Capai é jornalista e videomaker. Para ver mais seu trabalho acesse www.elizacapai.com
por Eliza Capai
Já tinha para lá de meia hora que não passava nenhum humano naquela estrada de terra no meio do fim do mundo. É engraçado como sempre falamos que o ‘fim do mundo’ são os lugares que não tem prédios gigantes, gente andando rápido e carros engarrafados. Pois bem, lá cercando a estrada do fim do mundo tinha um campo de florzinhas pequenininhas, branquinhas com umas montanhas no fundo. Como não tinha ninguém buzinando, ninguém me esperando, nem mesmo nenhum relógio que me avisasse o fuso horário local pedi para parar. O motor desligou: silêncio.


Era sul da Etiópia, eu viajava há cinco meses e me aproximava daquela região famosa chamada Vale do Rio Omo de onde se espalham .pps com fotos de pessoas pintadas. O 4×4 parou no meio da paisagem, sem viva alma, eu desci com câmera e tripé e entrei naquela calma. Passa borboleta, anda nuvem, venta. Verde, azul, branco, amarelo: fiz as imagens comemorando entrar numa outra dimensão, naquele tempo que é parte de nós e não nosso dono. Feito os clipes, fecho tripé, viro para o carro e observo um grupo de pessoas lá me olhando.

Já tinha mais de mês que eu era alvo de curiosidade. Tinha começado a entrar em terrenos sem turismo de massa e desde que uma criancinha ficou me olhando e começou a dar passinhos para trás até não aguentar mais e começar a chorar com medo daquele ser desbotado, eu havia entendido que ali a Outra era eu. E embora tivesse feito tudo para deixar em casa – jogar na privada e dar descarga – a capa de preconceito e de arrogância cultural que fui recebendo e construindo em toda a vida, uma parte destes ensinamentos todos tinham me acompanhado ali escondidinhos na pele amarelada que se julga branca – que mesmo sem querer, que mesmo não querendo mesmo, tem a mania de inicialmente se julgar melhor que os mais escuros, melhor que os menos ‘civilizados’, estressados, apressados e consumistas: “Definitivamente, nós que sabemos aonde vamos, que progredimos e trabalhamos duro – 12, 14 horas diárias -para produzir coisas e poder comprar outras – várias outras e em belas embalagens! – nós sim sabemos como é que tem que ser”.
Com minha superioridade técnica em equipamentos de ultima geração compactos fui me aproximando do carro. Quando vi aqueles seres comecei a ser invadida por um deslumbramento: o tal do exótico que costuma parear com a arrogância tentando balanceá-la. As mulheres eram pretas, pretíssimas. Os peitos eram compridos, fartos e desciam pelo corpo. Uma tinha um pescoço grande e para fazer graça pulava na frente da câmera até quase entrar na lente. Os cabelos eram enroladinhos sararás. Os dentes branquíssimos. Algumas delas se vestiam com colo a mostra e roupas de nosso mundo na parte de baixo. Outras com camisetas meio masculinas e velhas. No colo, na cabeça, nos braços muitas missangas. Na orelha algumas tinham botões, no colo pingentes de correia de relógio.

Meu pensamento primeiro foi: “que gente engraçada, usam tudo errado…. botão é na camisa, pulseira – óbvio! – no pulso”.
Não tínhamos nenhum idioma comum; verbalmente compartilhávamos em nosso vocabulário de uma única palavra: birr… o nome da moeda etíope. Elas me pediam dinheiro para eu tirar foto. Eu não podia ir dali sem registros, me dizia meu lado que amava o exótico. Paguei pelas imagens como faz a gente do meu mundo, que paga por tudo que deseja, e tirei as fotos, fiz vídeos, olhei elas com uma curiosidade de quem pousa em outro planeta.

Aí começou o milagre. Elas fizeram uma roda ao meu redor, me olharam de perto, me tocaram inteira: passavam a mão naquele cabelo castanho ondulado, apalparam aquele peito pequeno, comprimiam a barriga, testavam a rigidez da bunda. Elas queriam sentir do que era formada, qual era a textura daquele ser estranho. Eu me diverti sendo centro da exploração e naqueles minutos eternos fiquei imaginando como poderiam ser mais lindas as trocas se em vez de “olhar, não entender e julgar” a gente simplesmente se apalpasse, tocasse, flertasse para entender as diferenças e mesmo se a principio a gente – como sentimento primeiro, instinto mesmo – gostasse ou não gostasse – pouco importa – a gente processasse o sentimento e aceitasse que o humano pode ser tão diferente, tão contrario e pronto. Ponto. Sem adjetivos que colocam um acima do Outro. Sem pré ou pós conceitos que criam discursos que permitem barbaridades. Sem achar que entendeu o que provavelmente é impossível de alcançar porque há um abismo no meio, só assim aceitando o desconhecido, nos estranhando respeitosamente.

O guia entendeu que naquela minha cabeça milhões de sinapses estavam brilhando e então pegou a minha câmera e tirou foto de mim cercada por aquelas estranhas criaturas. Eu que não gosto de estar nas fotos posando de gringa quando revi a foto – meses depois e de volta para o meu mundo de amarelos – adorei: olhei aquela imagem e não tive nenhuma duvida de que ali eu era mesmo a coisa mais estranha, mais diferente e exótica.

A viagem que durou quase sete meses vai virar um documentário que discute mulheres contemporâneas e choque cultural.
O documentário esta sendo financiado coletivamente: para entender melhor o projeto, ganhar prêmios exclusivos e doar – as doações iniciam em R$ 15 – acesse movere.me e embarque junto!
Eliza Capai é jornalista e videomaker. Para ver um pouco de seu trabalho acesse www.elizacapai.com
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