Flores do Cerrado – normal ou cesareano?


por Daniela Scartezini
as rosas falam, vídeo

Eu ainda não sou mãe. Mas tenho vontade de um dia viver essa experiência que me parece cada vez mais milagrosa.
Ao mesmo tempo, me parece uma das coisas mais simples da vida. Sim. A mulher é assim: nasceu com o dom de gerar e pronto. Como o que há de mais natural. É da sua natureza a gravidez e, logicamente, parir.

Assim, conceber, gerar, dar à luz, para a mulher, é parte de um ciclo saudável. O contrário disso, talvez não seja. Eu não sei quem, ou em qual momento exato da história (uma amiga me disse que esse “advento incrível”, seja pós revolução industrial), aconteceu do ser humano relacionar gravidez à doença. Eu não sei e não quero também fazer julgamentos. Apenas propor uma reflexão sobre o assunto. Afinal, nós mulheres bem informadas, temos o dever para com a nossa espécie de querer o melhor para ela, não?

Há uma linha tênue para distinguir entre o benefício de não dor, conforto e a responsabilidade que temos em ir cada vez mais nos afastando de nossos instintos, de nossa sabedoria feminina, de nossa natureza, transformando o que é natural em anti-natural. Temos que pensar nas consequências dessas escolhas para a humanidade.

A mulher sabe parir. Foi feita para tal. Essa é a sua natureza. Imagino que seja uma pena perder esse milagre que a vida nos oferece. Reunir em casa, no hospital, no lugar aonde se sinta mais segura, a sua tribo para trazer a vida ao mundo – naturalmente, milagrosamente. Mas optar pelo parto cesareano? Por quê? A não ser que haja realmente uma situação de risco – totalmente a favor.

Mulheres, vamos refletir? Assistam esse corte do documentário “Flores do Cerrado”. Conheçam a história da D. Flor – parteira que trabalha para salvar vidas :) e prometo que trarei mais informações e uma especialista no assunto para continuar essa conversa, ok?

Pela revolução de nascer feliz


por Gleice Bueno
as rosas falam

Mais pertinho do céu há 33 semanas gestando Alice (clique da tia Renata F Nascimento)

Qualquer um que queira um mundo melhor, sabe que um nascimento digno é parte importante dessa história. Há alguns meses, quando iniciei minha jornada pela busca de um atendimento mais humano durante a gravidez, diferente daquele que estava recebendo nos consultórios médicos de SP, conheci um grupo incrível de profissionais formadas pelo curso de obstetrícia da USP e de mães agradecidas pelas informações e atendimento recebidos.

A coordenadora desse grupo é Ana Cristina Duarte, a Ana Cris, uma das mulheres mais incríveis desse mundo. Dona de convicções sólidas, embasadas pelo conhecimento teórico e, principalmente, por uma enorme experiência no atendimento a mulheres, ela consegue com sua sabedoria (além de um senso de humor brilhante) dissipar medos e angústias, evidenciando o poder e o saber da natureza, nos mostrando as armadilhas da nossa cultura.

O fazer de Ana Cris é criativo na essência e também na forma. Foi com a vida que ela escolheu trabalhar. Mas, não se contentou com a formação de bióloga. Foi ser parteira. Estudou no único curso que forma obstetrizes no Brasil, o da USP Leste, e que, neste momento, está ameaçado de fechar ao ser fundido com o de enfermagem. Bom, se isso acontecer, talvez ela não possa mais exercer a profissão que tanto ama. Pior para nós, que não teremos outras Ana Cris.

Não quero nem pensar que as mulheres que conheço, futuras mães, não tenham a oportunidade que tenho. A luta para que o curso de obstetrícia não seja extinto é, na verdade, pelo sonho de que um dia todas nós, brasileiras, possamos no momento da gestação, parto e pós-parto, sentir-nos amparadas por profissionais humanizados. Ter contato com a Ana Cris e sua turma é saber a revolução que isso representa. E nós, floristas, convidamos você para fazer dela.

Conheça Ana Cris, sua história, seu amor e sua luta pela vida.

E, se puder, faça parte. É só clicar (http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/8452) e assinar.

Afinal já pintei a cara por motivo menos nobre. #obstetrícia

“Eu me via assim, parteira”


por Gleice Bueno
as rosas falam

Meu nome é Ana Cristina Duarte. Coordeno no Gama – Grupo de Apoio à Maternidade Ativa . Sou obstetriz formada pela USP-EACH.

Quando decidi me dedicar ao atendimento de mães e bebês, já casada, dois filhos, vida estabilizada, eu poderia ter trilhado qualquer caminho que quisesse, qualquer carreira. Mas eu esperei por alguns anos, perseguindo a Profª Dulce Gualda em todos os eventos de Humanização para saber quando sairia o prometido curso de obstetrícia da USP.

No tempo em que esperei o curso sair, poderia já ter completado um curso de enfermagem! Mais dois semestres e algumas horas de estágio, eu já poderia ser enfermeira obstetra. Mas não era o meu sonho. Eu não me via  como enfermeira, eu não queria estudar doenças, hospitais, cuidado com  idosos, crianças, UTI, procedimentos, cardiologia, oncologia,  sistematização do processo de cuidar, antes de me dedicar à minha paixão.

Eu queria estudar a mulher, seus processos, a gravidez, seus partos, seus bebês. Eu queria reinventar o cuidado na gravidez, parto e pós-parto. Eu queria pensar em como cuidar da mesma mulher desde o resultado do exame de gravidez, até ela estar amamentando seu bebê. Eu queria estar com ela desde o início, até o fim do processo. Com a mesma mulher, na sua família, na sua casa, no seu contexto social, emocional, afetivo. Eu me via assim, parteira. Eu não me via assim, antes enfermeira, depois especialista. Questão de identidade pessoal com uma carreira que já existe internacionalmente e já existiu no Brasil!

Quando o curso saiu para o vestibular de 2005, eu devo ter sido a primeira a me inscrever! Foram quatro anos de dedicação. Quatro anos estudando tudo o que se refere à mulher, nesta fase da vida. Tínhamos na ponta da língua tudo o que era normal e o que era anormal. Normal na média, normal fora da média, anormal. Exames, diagnósticos, sintomas. Equipe multidisciplinar, UBS, alto risco, baixo risco. Fisiologia, anatomia, nutrição, sociologia, psicologia. Mecanismos do parto, manobras, posições, apresentações, distocias, eutocia. Intervenções, estatísticas, saúde pública e privada. Filmes de parto entre técnicas de esterilização. Parto na água entre elaborações de escala.

Sacolejando em trens ou parados na Marginal Tietê ao final de um dia cansativo, nós sobrevivemos a quatro anos de intenso treinamento focado na assistência humanizada, segura e baseada em evidências no ciclo da gravidez, parto e puerpério. Foram quatro intensos e difíceis semestres de estágio, porque ainda não existem campos de estágio onde a mulher seja vista e tratada como nós, alunos, havíamos aprendido na escola.

Mas ainda assim pudemos atender muitos partos, consultas de pré natal, consultas de pós parto, em ambulatório e domicílio. Massagem nas costas e partograma, palavras de incentivo, acocorar no banheiro, abraçar, controlar a dinâmica e o gotejamento (desse não pudemos escapar). Proteção do períneo, clampeamento tardio (quando conseguíamos), contato pele-a-pele (quando transgredíamos).

Tivemos um excelente curso, que certamente poderia ser melhor (tudo pode ser sempre melhor) e que desde então vem sendo melhorado ano a ano, com novas disciplinas, reestruturação da grade, adaptação a exigências. Formamo-nos obstetrizes competentes e sedentos por trabalhar na assistência. Não queremos ser enfermeiros, nem médicos, nem psicólogos.

Queremos trabalhar na assistência à saúde da mulher durante a gravidez, parto e puerpério. Apenas obstetrizes, como existem em todo o mundo sob  os curiosos nomes de sage-femme, midwife, matrona, partera, hebamme, ostetrica, obstetrix, llevadora. Não estamos reinventando a roda e não negamos a importância de todas as outras profissões que existem.

Quero apenas continuar fazendo o que amo: assistência dentro de equipe multidisciplinar, com parceiros obstetras, psicólogos, enfermeiros, fisioterapeutas, doulas, educadoras, pediatras e muitos outros. Quero continuar parceira respeitosa e privilegiada desses maravilhosos médicos e enfermeiras obstetras que têm nos dado os braços nessa longa jornada pela melhoria da assistência à saúde no Brasil. Mas não quero ser enfermeira nem médica. Eu sou obstetriz.

Neste momento, o primeiro e único (por enquanto) curso de formação de obstetrizes do país está sob ameaça. A USP pretende encerrar as vagas para a carreira já no próximo ano. A justificativa é que o Cofen (Conselho Federal de Enfermeiros) não nos reconhece como enfermeiros (que não queremos ser), bem como não mais reconhece a profissão obstetriz, apesar dela ser mais antiga que a enfermagem obstétrica. A proposta oficial da USP é “Fundir o curso de obstetrícia com a enfermagem”, ou seja, aumentar um pouco o número de vagas para Enfermagem no vestibular e extinguir de vez a Obstetrícia.

Esse é o começo do fim. Sem vagas, sem alunos. Sem alunos, sem curso.

Sem curso, sem carreira. Sem carreira, sem obstetrizes. Mesmo as que existem serão como solitárias andorinhas voando sem um bando. Sem fazer verão. Sem mudanças no cenário. Continuaremos como era antes, o que não era nada bom. Para impedir que isso aconteça, é necessária muita pressão da sociedade e é isso que estamos tentando fazer. Para isso peço sua ajuda neste momento.

Assinando nossa petição, manifestando nela a sua opinião, vamos mostrando que o curso não é uma manifestação de 250 alunos e 150 obstetrizes formados. Não estamos falando mais de um vestibular, nem de alguns formados a procurarem uma nova carreira. Assinando, mostramos que o curso e seu ideário são uma manifestação da sociedade por um mundo melhor, por uma forma diferente e justa de se gestar, nascer, dar à luz e amamentar seus filhos, que seja acessível a todas as mulheres. A obstetrícia não diz respeito a obstetrizes, enfermeiros, médicos, USP, CFM ou Cofen. A obstetrícia diz respeito à vida de todos e ao futuro dos nossos filhos.

A parteira Ana Cris

Para assinar nossa petição (http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/8452) basta nome e RG, mas você também pode deixar uma mensagem de apoio. Não precisa preencher os outros dados.

Reportagem no blog da fotógrafa Bia Fioretti

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Blog Obstetrizes Já


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