
Conhecer a história de Daniella Zylbersztajn me fez lembrar aquele verso de Fernando Pessoa que diz que para viajar basta estar vivo. Isso porque a designer sabia aonde ir desde muito cedo. E tão importante quanto o caminho foram os sapatos que a levaram em busca de seu sonho, sua realização.
Na cidade belga de Antwerpen, Daniella encontrou a si mesma e trouxe histórias, beleza, impressões e sentimentos de sua vida nas bolsas que passou a criar. Cada coleção desenvolvida por Daniella é uma forma de sentir e expressar o que ela absorve da natureza. As peças feitas a mão, com extremo cuidado e beleza, são souvenirs que transmitem sua mensagem de amor e refletem sua atenção plena à vida.
Esta é a história de criação e descoberta de uma artista que se coloca no mundo de forma sensível e transforma, com as mãos, os materiais que encontra em histórias para levar a tiracolo.
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Cresci lembrando-me de meus sapatos cor-de-rosa, presente de meus pais quando completei uns 5 anos de idade. Sim, eu escolhi como presente de aniversário um par de sapatos! Pois é, desde então, eu já mostrava aptidão para moda e criação, mas cresci negando essa qualidade em mim.
Fui parar oficialmente na moda após ter cursado (metade) de uma faculdade de Direito e Comunicação Social (essa eu completei!). Minha intenção, naquele momento, era ser jornalista de moda, trabalhar com comunicação, enfim, tudo MENOS criar.
Após ter tido alguma experiência prática no mercado, trabalhando em empresas como Polo Ralph Lauren e Santa Constância Tecelagem, coloquei em prática um antigo sonho de ir viver em Milão, meca da moda! Planejei essa viagem, aliás, mudança, pois minha ideia era ficar por lá mesmo. Saí do Brasil, de São Paulo, de minha casa aos 25 anos de idade.
Chegando a Milão, entendi muita coisa! Tanto a respeito do fashion business, da vida e, acima de tudo, de quem eu era e o que eu buscava como profissional. Finalizei os cursos que eu havia ido fazer na área de comunicação de moda e me coloquei um novo desafio: desenhar. Pra mim, que sempre usei bem as palavras, esse era um super desafio que significava quebrar o padrão que podia TUDO em moda, MENOS criar. Enfim, depois de tanta crise ter rolado naquela vivência no exterior, percebi finalmente que minha história, ou minha real vocação, era a criação.
Foi um processo bem intenso o de perceber, aceitar e agir. Mas o chamado veio forte, uma catarse, tanto que quando voltei para o Brasil, há 10 anos, já trazia meu projeto de bolsas a tiracolo. Levei uns seis meses para inseri-lo no mercado nacional. Neste período, fui me exercitando. Exercitando o meu sentir, exercitando o meu fazer e expondo para o mundo.

"Bird" _ Foto de Gustavo Zylbersztajn, irmão de Daniela para uma de suas coleções
Durante o período em que vivia em Milão e após ter tomado a decisão de voltar para o Brasil decidi fazer uma viagem a centros vanguardistas de moda, já que Milão para mim era muito mainstream. Foi assim, meio por acaso, que a encantadora cidade de Antwerpen entrou na minha vida.
Decidido o destino, ofereci-me como colaboradora para uma revista especializada em tendências de arte, design, fashion. Foi só falar que eu iria para Antwerpen e Berlin fazer um pesquisa, que eles super se interessaram. Ali entendi que Antwerpia significava o novo, de verdade.
Isso foi há 11 anos. Antwerpia era realmente fresh. Bom, me joguei nesta vivência, sozinha numa viagem que durou um mês, mas pareceu muito mais tempo, tamanha a intensidade das descobertas que aconteceram por lá.
Fiz um extenso trabalho de pesquisa e fiquei maravilhada em contato com tanto material rico, sentindo o que era a criação no real sentido da palavra. Foi nessa viagem, após algumas catarses durante a madrugada (acordei por diversas vezes escrevendo meu projeto de bolsas, costurando, enfim, liberando toda a criatividade que estava presa), que entendi que minha historia, o meu caminho, era criar. De volta ao Brasil, coloquei em pratica aquilo que havia descoberto. Nasceu assim, minha marca de bolsas.

"Bichos", é uma campanha de criação da própria designer
O que me inspira é a Vida: a vida traduzida pela natureza em suas formas, abstratas, geométricas, em suas texturas e essências. Aquilo que já esteve “aí” também me inspira. Procuro exercitar todos os meus sentidos neste exercício criativo. Gosto de misturar referências, olhar para uma luminária, sentir um cheiro especifico, fechar os olhos e sonhar. Já acordei após ter tido um sonho com cisnes, com a sementinha da coleção plantada. É um processo muito particular, onde o mais importante para mim é passar uma mensagem, trazer uma maneira bonita de se olhar a vida.
O que move meu trabalho é expressar um pouquinho de mim, das percepções que vão sendo despertadas no meu caminhar. Quando a coleção “nasce” ela está comunicando, expressando aquilo que estou vivendo naquele momento. Começo a enxergar “sinais”, “símbolos”, enfim, coisas que fazem sentido para mim e, então, deixo esse material “decantar” internamente por um tempo. A partir daí, vejo o conceito traduzido em imagens, vídeos, enfim, eu vejo “the whole picture” e inicio o desenvolvimento da coleção.
Quando finalmente começo a escolher os materiais para uma coleção, as referências estilísticas de uma determinada época ou um movimento que esteja em consonância com o momento também servem de suporte para as criações. Enfim, são todos esses inputs que se transformam em bolsas.


Algumas das bolsas da designer Dani Zylbersztajn



Para contato e adquirir as bolsas:

Há quem pense que fotografia se faz com câmeras. Alguns, mais atentos, podem achar que ela se faz com os olhos – os de quem retrata e os de quem observa a imagem depois de captada e exposta. E há pessoas que
são capazes de encontrar na realidade um diálogo com a alma. Para isso não basta ver, é preciso sentir.
Quando a gente mergulha no mar de Marina, da Paula Marina, a gente vai além da linda aquarela de cores, a gente sente o sal na pele, vê a força do vento e a alegria das ondas. Encara o medo, percebe a imensidão e respira a profunda calma do barulho do mar… A fotografia dessa pernambucana/carioca/paulistana é um retrato dela mesma e também um convite para uma experiência intensa para quem quiser, pelo olhar, despertar imaginação, memória e sentidos.

- De onde você vem Paula? Sua origem tem influência em seu trabalho?
Sim, com certeza ! Nasci em Recife (PE) e morei no Rio durante os
primeiros cinco anos da minha vida e minhas primeiras memórias são
desta fase. Lembro-me direitinho de ir à praia , pequenininha, e ficar
olhando as ondas da praia de Copacabana. Para mim eram gigantes e
amedrontadoras, mas fascinantes ! O fascínio continua até hoje, o
medo virou respeito, admiração, tesão.
- Por que a fotografia?
Não acho que exista um porquê para a fotografia. Apenas é. Sinto-me à
vontade fotografando, me dá um prazer imenso. Gosto do processo de
fotografar, de pensar o que eu quero, de juntar as imagens e ver se
consegui contar a história, de transmitir um sentimento, causar uma
emoção. Fotografo o tempo inteiro, mesmo sem câmera. Vou olhando,
observando e fotografando. Faz parte de mim.
- Você teve um mestre em seu caminho?
Não exatamente. Admiro o trabalho de muitos fotógrafos, mas nunca tive
um mestre, alguém que me guiasse neste sentido. Estudo, faço cursos,
leio, procuro saber sempre mais e estou sempre buscando referências
nas várias vertentes da fotografia e também fora dela, como na
literatura. Dos admirados posso citar Ernst Haas , Sebastião Salgado, Annie Leibovitz, Cartier-Bresson,
Pep Bonet , Pedro Martinelli, Harry Gruyaert, Elliot Erwitt, Martin Parr, só para citar
alguns poucos.
- Para onde você mais olha quando fotografa?
Além do mar, gosto muito de fotografar pessoas, fazer retratos, contar
histórias de personagens, fazer com que as pessoas se sintam bem na
frente da câmera, valorizadas. É uma delícia quando consigo isto,
quando alguém se sente bem ao se ver fotografado e solta um sorriso
que me revela que eu consegui.
- Há uma câmera ou lente mais fiel aquilo que você vê?
Gosto muito de trabalhar com lentes grande angulares que incluem mais
elementos nas imagens e também nos forçam a chegar mais perto do
assunto principal. Quanto à câmera não tenho uma preferência. Lógico,
trabalho com o que tenho e me adapto à situação. Mas tudo depende do
que estou fotografando e o que quero mostrar.
- Você é o tipo de fotógrafa que olha para a realidade ou prefere
inventá-la? Em outras palavras, a fotografia vem mais de dentro ou de
fora?
Vem de dentro, sem dúvida! A fotografia é essencialmente uma
interpretação do que o fotógrafo vê. Eu vejo, interpreto e fotografo.
Por mais fiel que queira ser à realidade estarei sempre dando minha
visão. Os melhores fotógrafos são aqueles que conseguem passar em suas
fotos o que vêem e sentem.
- Você costuma dizer que brincava de fotografar e agora faz isso de
um jeito mais sério. Transformar o hobby em atividade profissional
valeu a pena? O que essa escolha exigiu de você?
Sim, está valendo à pena. Exigiu que eu me adequasse a uma nova
realidade, porque tenho que pensar a fotografia profissionalmente, de
acordo com o que o cliente quer e nem sempre isto é fácil. Não é mais
somente o que quero, é o meu olhar adaptado ao trabalho, ao cliente, à
publicação. Exige estar sintonizado com técnicas, equipamentos e uma
atualização constante. É um mercado que anda muito rápido.
- Ainda que o tema seja o mesmo – por exemplo o mar do ensaio
publicado aqui - suas imagens ora são quentes e fortes, ora calmas e
sublimes aquarelas. Nos dois casos, a cor é um elemento bastante
importante em sua composição, certo? A escolha é mais cerebral ou
sensível?
Totalmente sensível. Não penso nisso quando estou compondo uma foto.
Ela quase que se faz sozinha. Vou muito mais pelo prazer da criação do
que pela razão da utilização de cores quentes e frias, por exemplo.
Olhei, gostei, cliquei. É mais ou menos assim !
- Há uma forte energia de vida em seu trabalho, muitas vezes quase
sexual. A fotografia pra você é uma experiência exclusiva do olhar ou
sinestésica?
Acho que é uma mistura. Começa pelo olhar que evoca outros sentidos e
emoções. Uma fotografia pode ter cheiro, sabor, alegria, amor, ódio,
revolta. Fotografia tem que ter emoção. Para mim uma foto técnicamente
perfeita que não cause nada não é uma boa foto, mas uma foto nem tão
boa tecnicamente que te faça lembrar do cheiro do bolo que a sua mãe
fazia quando você era criança é uma grande foto porque alcançou seu
objetivo: fez você sentir.



E porque as imagens tomaram conta de A Florista esta semana… Aproveito para compartilhar Miragens, uma exposição deslumbrante em cartaz no Instituto Tomie Ohtake. Tomei conhecimento da mostra ao ver a foto linda que a @pakalil publicou no Instagram.
São 58 obras de arte, de 29 artistas internacionais, que têm em comum produções sobre o universo islâmico, com a diversidade de olhares que toda cultura merece.
E como retratos são uma paixão, o destaque fica por conta das fotografias de Shadi Ghadirian, que produziu imagens inusitadas ao unir o estilo “retrato de estudio”, do final do se. XIX, com objetos modernos do Ocidente.
Miragens fica em cartaz até de 03 de abril, de terça a domingo, das 11h às 20h. É de grátis, mas não tem preço! :)

O desencontro, a vida, a arte e seus encontros, por Gleice Bueno
Alexandre Sequeira é o fotógrafo que eu sempre sonhei em ser: viajante, sensível, atento, inteligente e talentoso. Ele faz da câmera um instrumento de aproximação com o outro e, por meio das imagens que resultam desses encontros, expressa e desperta afeto. É sobre o encontro com esse artista e dele com o mundo que este post vai falar. Mas, antes, eu preciso contar uma outra história…
A notícia do TEDxAmazônia, A Florista e a gravidez da minha primeira filha chegaram a minha vida ao mesmo tempo. Tempo intenso e delicioso de criação. Sem saber direito como contribuir com a organização do evento, ofereci o meu fazer, de fotógrafa e jornalista, para documentá-lo. Planos feitos e muito entusiasmo.
Acontece que início de gestação nem sempre é fácil e quase me vi desistir. Foi quando apareceu o convite para integrar A Florista, projeto da minha querida e generosa Dani Scartezini, que eu já havia tido a honra de inaugurar. Fizemos os postais e as camisetas para presentear os Tedxters e achei que minha participação terminaria por aí.
Meu corpo, no entanto, tremia só de pensar na floresta e nas pessoas incríveis que sabia que estariam por lá. Esse desejo me fez deixar pra trás traumas, medos e algumas recomendações de não viajar para a Amazônia no início da gravidez. Fui confiante e inteira, com os dois corações que batem forte dentro de mim, para aquele encontro.
Desencontro
Impossível descrever as sensações experimentadas naqueles dois dias. Difícil relatar tudo o que foi aprendido nas relações estabelecidas por lá, mas me propus a compartilhar a experiência que vivi da maneira mais inesperada, a palestra do fotógrafo Alexandre Sequeira, justamente a que não pude assistir.
Tive que sair do auditório para beber um pouco de água e na volta encontrei as portas fechadas. Tentei argumentar – sabendo não ter razão – que precisava estar lá dentro, que enfrentei muitas coisas por aquele momento, que não era justo ficar sem a experiência que eu mais queria… Ouvir! Foi quando percebi o tradutor pendurado no pescoço e pude, mesmo do lado de fora, participar do encontro com o Alexandre.
Ouvi, como quem devora a coisa mais gostosa do mundo, cada palavra, imaginando as imagens que ele mostrava, me emocionando com as histórias dos moradores de Nazaré do Mocajuba* e, principalmente, aproximando minha alma daquela outra alma, cujos olhos os meus não podiam ver. Quando a palestra terminou, os amigos me encararam com a tristeza de saber que eu havia perdido algo que não poderia, que não dava pra recuperar. Eu tinha as palavras e o sentimento dele, mas…
Fiquei procurando uma razão sobrenatural para ter saído do auditório naquele momento e decidi encontrar um motivo real que compensasse. Foi quando uma amiga propôs procurá-lo no intervalo (as delícias e oportunidades que o TEDx proporciona). Sou um pouco tímida, mas a vergonha desapareceu assim que vi os olhos que tanto queria. Alê prometeu contar, para mim e minha filha ou filho, seu processo de criação.
No instante daquela promessa pensei que essa história devia ser compartilhada aqui, em A Florista, e ele doce e generosamente concordou. Fiz ao Alexandre algumas perguntas para tentar conhecê-lo melhor, curiosidades sobre a formação e composição de um olhar tão afetuoso e inteligente.
Queria muito que tivesse sido uma conversa, frente a frente, e espero que um dia tenhamos essa oportunidade. Em breve, a gente poderá ver no site do TEDxAM o vídeo da palestra que eu perdi. Aqui, as fotografias e as palavras de Alexandre Sequeira revelam a extrema sensibilidade desse artista no encontro com o outro e com o mundo.
TEDxAmazônia – Alexandre Sequeira reencontra o sentido da fotografia – Nov.2010 from TEDxAmazônia on Vimeo.



De onde você veio, Alexandre?
Nasci em Belém do Pará, mas tenho um espírito meio andarilho. Gosto de conhecer o novo. Passei certo tempo em Brasília, alguns anos em SP e, mais recentemente, dois anos em Belo Horizonte, onde fiz um mestrado em Arte e Tecnologia. Independente de estabelecer base em algum local, estou sempre me deslocando por aí, desde pequenos vilarejos isolados a grandes centros urbanos desse mundão afora. Nunca me senti “de um lugar” apenas. Adoro ser provocado a sair daquela letargia que, muitas vezes, a rotina nos impõe.
O que mais me arrebata em seu trabalho é o interesse e o amor que o ser humano parece te despertar. O que fez você desenvolver tamanha sensibilidade?
Acho que, em geral, o brasileiro é bastante afetuoso, mas credito o que sou à minha família. Venho de uma família que nunca se privou de rir ou chorar junta. Passamos por muitas alegrias e dificuldades (como tantas outras famílias brasileiras) e, nessas situações, aprendíamos a externar o que sentíamos e a perceber o que o outro sentia. Eu acho que a sensibilidade surge desse exercício permanente de se manter atento ao mundo que nos cerca – postura que, a meu ver, não é exclusiva do artista, mas de qualquer pessoa que não pretende estar aqui apenas “de passagem”. Para o artista, creio que essa percepção mais aguçada é indispensável, por ser o meio pelo qual ele constrói ao longo da vida um arquivo geral, um grande baú de referências, as quais ele pode lançar mão na hora de formular uma determinada questão através de seu trabalho. Mas é claro que, para servir de insumo à arte, a vivência tem que ser processada e depurada pelo estudo. Como lembra Mario Pedrosa, a experiência estética, ao contrário das outras formas de conhecimento, é da ordem da intuição, mas essa “apreensão imediata” requer estudo, ao longo do qual se prepara e cultiva a sensibilidade.
Você é arquiteto de formação. Vem daí seu interesse pelos lugares e pelas relações que neles se estabelecem?
Acho que sofremos influências de uma série de experiências e questões com as quais nos deparamos ao longo da vida. Muito antes de sequer pensar em universidade ou escolher arquitetura como um curso de graduação, lembro que, ao viajar de carro com minha família, ia sempre com os olhos fixos na janela, devorando cada palmo de terra que passava veloz pela minha frente. É claro que posteriormente, tomei conhecimento de uma série de outras camadas de significação que esses lugares agregam – valores que talvez já me fascinassem desde pequeno, mesmo sem eu sequer saber de seu sentido mais específico. Sem dúvida, a arquitetura me trouxe uma série de informações que hoje vejo claramente em meu trabalho. Na época em que fiz vestibular, não tinha muita certeza de que a arte seria minha principal área de atuação profissional (embora desde então já adorasse desenhar e pintar), e talvez por isso, acabei escolhendo arquitetura, que me pareceu, naquele momento, uma área de convergência de alguns interesses.
Por que a fotografia? Quando essa história começou?
A fotografia surgiu bem depois. Meus primeiros contatos estavam relacionados ao design gráfico, atividade que desenvolvi por alguns anos em que morei em São Paulo – logo após a conclusão de minha graduação em arquitetura. Nessa época, pensava a fotografia estritamente como instrumento capaz de solucionar questões específicas da área que atuava. Foi só depois de voltar à Belém, e participar de um curso no FOTOATIVA (associação que reúne um grande número de fotógrafos da cidade), que comecei a vislumbrar as relações entre a fotografia e o que eu buscava como um trabalho mais autoral no campo das artes. Hoje, refletindo sobre o que faço, percebo a contribuição que cada uma dessas áreas me trouxe (a arquitetura, o design gráfico, a fotografia), e não me arrependo – pelo menos em relação a isso -, de nenhum passo dado.
Você escolhe seus trabalhos ou eles te escolhem?
Costumo dizer que meus trabalhos surgem desse prazer por me deslocar, por conhecer outros lugares e pessoas. Mas isso não quer dizer que qualquer lugar que eu vá, resultará em um novo trabalho. Depende dos encontros, das relações que se estabelecem. E se algo me toca, aí sinto que devo ficar mais tempo ali. Caso contrário, será apenas mais um lugar que conheci. Meus trabalhos, em geral, surgem do inesperado, do fluir dos acontecimentos.
O que te traz mais satisfação, seu processo de trabalho ou o que ele revela?
Adoro quando me sinto mergulhar em um novo trabalho. Às vezes sequer percebo que o trabalho já começou. Quando me dou conta, já estou completamente envolvido e parece que tudo conspira a favor, convertendo-se em possibilidades poéticas. É muito bom! Mas aí vem a justa articulação entre as relações afetivas que se estabelecem e elementos que animam esse convívio, capazes de transmitir a dimensão do acontecido. Essa articulação nem sempre é fácil e requer muito carinho, zelo. É um momento em que me divido entre viver os acontecimentos, e ler muito, pensar. Percebo que meus últimos trabalhos resultaram em uma quase desmaterialização no que se refere a resultados. A experiência vivida se converte na obra propriamente dita, e sua forma final é a de uma história para contar. Mas não creio que isso seja uma via de mão única. Trata-se apenas do reconhecimento do que cada experiência pode oferecer. Pode ser que novos trabalhos retomem uma solução final mais formal.
Ainda que cada projeto seja singular e pareça ter metodologia e técnica específicas, é possível descrever algo que esteja sempre presente em seu processo criativo?
Costumo ouvir de várias pessoas que entram em contato com meus trabalhos, que um ponto que os une é a rede de relações de afeto que se estabelece. Concordo que esse pode ser realmente um ponto em comum. Por mais que o elemento indutor de uma determinada pesquisa seja alguma questão que vem da literatura, da filosofia, ou de um acontecimento aparentemente banal, ele se resolve, acima de tudo, no cuidado com o outro. Na justa adequação entre uma aproximação carinhosa e a devida distância que respeita a individualidade de cada um. Qualquer que seja o método, ele deve se converter em atitudes, gestos, palavras, silêncio, e na calma de deixar que as coisas aconteçam no tempo que tem de acontecer.
Em Nazaré do Mocajuba, trabalho profundo e poético, você une de forma simbiótica o tema e a técnica. Como surgiu a incrível idéia de inserir as imagens dos moradores em seus próprios objetos?
Como disse, não tenho uma idéia certa do que pode vir a acontecer no decorrer de minhas pesquisas. No caso da utilização dos tecidos/objetos pessoais como suportes para os retratos dos moradores da vila de Nazaré do Mocajuba, ela surgiu de minha gradativa aproximação com a intimidade dos lares dessas pessoas com quem eu convivia. Ao entrar nas casas, me deparava com objetos como cortinas que separavam os ambientes, de uma estampa que em muito se referia ao seu dono. Por vezes, percebia a silhueta de pessoas que se deslocavam no ambiente contíguo, projetadas na superfície dos tecidos desgastados pelo tempo. Eram imagens que me chegavam como sussurros, confidências daquelas pessoas queridas. Queria falar de uma relação com o lugar e com aquelas pessoas, e sabia que o tempo era um dado indispensável para tratar dessa questão. E aqueles tecidos, traziam esse dado em sua própria constituição – cada pequeno rasgado ou parte desbotada da estampa se referia a um tempo transcorrido. Foi só então que comecei a propor trocas: eu dava aos meus companheiros de projeto uma peça nova, e eles me davam a que havia no local. Isso aconteceu não apenas com cortinas, mas também com toalhas de mesa, lençóis, redes… E sobre cada uma delas, reproduzi a imagem fotográfica de seu dono em tamanho real.
Há muito interesse pela vida em seu trabalho, mas algo nele parece também versar sobre a morte. Que relação você estabelece entre a fotografia e a memória?
Essa é uma questão que está intimamente ligada aos fundamentos da fotografia: a imagem fotográfica como documento do desaparecimento ou, emprestando as palavras de Barthes, do que foi, do que aconteceu. Por outro lado, trata-se de um registro que permanentemente se renova a partir de cada nova apreciação. Há uma incompletude na fotografia, algo que escapa, que se coloca sempre para além do mero registro de um referente. Creio que, nesse sentido, justamente pela incapacidade de dar conta do momento que em vão tenta capturar, a fotografia paradoxalmente sugere o sentido mais nobre da memória: o sentido de retomada, pela permanente revisão que ela suscita. É através do contato com a imagem, que imprimimos sempre uma nova versão para o dado concreto, optando talvez pela fabulação como a melhor forma de resguardar o dado real.
E assim a vida segue seu curso.
Há uma influência metodológica da antropologia visual na sua fotografia?
Não sei se metodológica. Procuro, na medida do possível, me desarmar de qualquer conceito pré-estabelecido quando surge um novo trabalho. Por outro lado, sei que meu trabalho surge de um trânsito que estabeleço pelo tecido social, envolvendo uma, duas ou mais pessoas. Nesse sentido, os resultados mesclam escolhas pessoais com expressões que dizem respeito ao grupo do qual participo – não como artista/pesquisador, mas como mais um. Creio que o maior desafio está em estabelecer uma relação honesta entre essas instâncias. Não deixar que o olhar do artista se imponha sobre o contato mais espontâneo e desarmado.
Nem sempre é tarefa fácil para os fotógrafos transcender o anedótico. O que mais te interessa quando faz retratos?
Procuro estar sempre atento ao jogo que anima o ato fotográfico. No caso do retrato, o que mais importa não é a identidade, mas a alteridade secreta. É na contramão de uma idéia de identidade cristalizada e imutável que as discussões sobre retrato contemporâneo se situam. Emprestando mais uma vez as palavras de Barthes, é no ponto de encontro entre quatro “personagens”, que o retrato fotográfico se situa: aquele que o fotografado acredita ser; aquele que desejaria que os outros vissem nele; aquele que o fotógrafo acredita que ele seja; e aquele que o fotógrafo se serve para exibir sua arte. Não há nada de novo nesse sentido, esse jogo nos acompanha desde o surgimento da fotografia, e creio que estende para muito além dela, permeando todas as nossas relações sociais.
A arte é espelho?
Uma miragem talvez…Quem sabe um caleidoscópio? Creio que a relação entre arte e vida se dá muito menos pelo que a arte é capaz de nos fornecer como “verdade” ou um determinado ponto de vista que deva prevalecer. Acredito em seu poder de suscitar o encontro em um mesmo ponto entre infinitas formas de ver a mesma coisa. Nenhuma menos verdadeira que a outra.






Leia mais sobre os trabalhos de Alexandre Sequeira em “Nazaré do Mocajuba” e “Meu Mundo Teu”.
Nazaré do Mocajuba
Alexandre Sequeira visitou, em 1997, o vilarejo de Nazaré do Mocajuba, a 150 km de Belém, com a intenção de fotografar a paisagem. Mas, o contato com os moradores o fez iniciar uma pesquisa que resultou em uma série de imagens fotográficas impressas sobre os próprios pertences dos moradores: objetos cotidianos como redes, lençóis e mosquiteiros. É um trabalho poético e profundo, que emociona e faz refletir sobre a fotografia como intermediária do encontro e da memória.


“Meu mundo Teu”
A partir de cartas e fotografias, realizadas com câmeras artesanais de um e dois orifícios e câmeras convencionais com dupla exposição de filmes, Alexandre Sequeira promoveu, em 2007, o encontro entre Jefferson Oliveira, morador da ilha do Combú na região amazônica, e Tayana Wanzeler, moradora do bairro do Guamá na cidade de Belém. Os dois adolescentes trocaram impressões sobre suas realidades e construíram uma rede de afeto por meio do diálogo proposto por Alexandre.
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