Flor do dia | Lauren Monaco


por Daniela Scartezini
Fazer_visual, Ilustração, Palavras, flor do dia

O processo de criação de um projeto de livro infantil, continua.

Enquanto isso em uma universidade de Design de Washington… a estudante Lauren Monaco, desenvolveu esse projeto incrível baseado na obra de haikai de Jack Kerouac.

A gente já falou bastante aqui sobre o haikai no post da Karine, para quem quiser degustar mais.

Luciana Sapia | Flores para comer


por Daniela Scartezini
Cozinha, flores

(com a alma!)

Era uma vez…

Uma menina de olhos misteriosos e falantes. Já mulher, formou-se em Ciências Sociais pela USP, pouco depois, foi estudar pedagogia Waldorf e se tornou professora e contadora de histórias. Anos se passaram e ela deu à luz à três lindos filhos: uma menina, a primogênita, um menino, o segundo e outra menina, a caçula. Mãe, fez, gerou e pariu suas crias em seu próprio ninho, digo… Casa.

A mulher possuía outros diversos dons: era artesã, cozinheira e… padeira! Seu nome é Luciana Sapia e ela é mesmo um exemplo de que é possível ser mulher, moderna, e manter vivo e presente o feminino essencial: intimamente ligado ao fazer e ao criativo.

Mas não esse feminino romântico que estamos acostumados a ouvir por aí. Mas o arquetípico, o feminino antigo, que dispõe de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, um oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora, uma geradora e uma ouvinte que guia, sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos interior e exterior.

Quando chego em sua casa é assim: entre flores e enfeites de porta que ela mesmo faz, um de seus 3 filhos vêm junto dela abrir a porta. Sorriso sincero, um forte abraço e um cheiro delicioso no ar.

Na pequena casa de vila cor de rosa, tem sempre algo saindo do forno. E sem exageros, tudo é sempre – uma delícia! Aos recém-feitos 30 anos (!), sempre linda, ela recebe com café, bolos, sopinhas e mais recentemente a encontramos por lá, na cozinha, fazendo mais uma de suas artes com as mãos, que arrisco dizer, não poderia haver outra mais generosa para receber tudo que Luciana é : o pão.

Lú tem um ar de quem saiu dos anos 70, quer viver da sua arte, em comunidade, elevar o arquétipo do feminino banalizado pela mulher dos anos 90 e criar com a liberdade da mulher da era 2000. Tudo isso, não sei como e com qual magia, se transfere através de suas mãos para a massa e se revela quando somos servidos de um pão feito artesanalmente em sua padaria caseira.

Ela diz que não tem segredo: é o amor e a entrega com que faz seu pão. Diversas histórias já contaram sobre o encantamento do alimento que além de alimentar o corpo, alimenta a alma. É o alimento que carrega um sentimento, um sabor que desperta uma pessoa, um cheiro que recorda um tempo, uma textura que conforta. O alimento que tem alma. Como ela mesma diz : um alimento vivo!

A bíblia cita o “pão nosso de cada dia” umas 340 vezes – alimento sagrado, diário, feito pelas mulheres que cuidavam de suas famílias.

Tudo isso: feito com as mãos, uma arte, vivo, sagrado, natural, da terra, da família, alimento, saboroso, belo e cheio de histórias e fundamentos… assim é o pão da Lú e é por isso, que não poderia haver outro Fazer tão perfeito para ela.

E os pães feitos à mão por Luciana carregam histórias sobre todas essas histórias. Pura fartura de alimento para todos os sentidos.

Para se alimentar de amor.


Pão e Rosas!

(por Luciana Sapia | fotos Antonia Castro)

Com a chegada da maternidade me dei conta das minhas mãos. Trocando as fraldas de minha filhota, lhe acariciando… no banho, as mãos seguras amparando seu delicado corpinho, a massagem com óleo de camomila e depois as papinhas cozidas durante horas na panelinha de barro para iniciar a alimentação e ensiná-la a experimentar o mundo.

A parte do meu corpo que mais mudou com a gravidez foram minhas mãos – mãos maternas, mãos que tateiam o mundo buscando amor para oferecer ao filho recém chegado!

Sempre fui dona de muitas idéias, tive vontade de fazer inúmeras coisas, valia cozinhar, costurar, fazer boneca de lã, arrumar as flores num vaso bonito, pintar as paredes da casa com aquarela, ler poesia em voz alta, criar gatos de barro para ensinar as mãos do que é feito o mundo. A matéria e a alma! Permear a vida de graça, cores, sabores e saberes, ouvir histórias, dar ritmo ao corpo através da música…

O tempo todo estamos recriando a vida e o motivo pelo qual estamos aqui. É no fazer que libertamos nossos processos criativos!

Foi essa sensação que experimentei quando comecei a fazer pão. Alimentar a massa com o calor das minhas mãos é uma prece diária que vai se tecendo entre a bancada de madeira, a massa e o meu coração.

Misturando todos os ingredientes dentro da bacia vou recriando o mundo. A água cálida aquece minhas mãos e com movimentos suaves vou trabalhando a massa para trazer a força vital de cada alimento ali integrado. A alquimia acontece: farinha, açucar, sal, óleo e fermento agora numa massa unida, plácida e perfumada, já pronta para descansar e crescer. E como disse certa vez um padeiro amigo meu: o pão vem trazendo o sol da manhã! Brinco: pelas mãos do padeiro o dia começa a raiar…é hora de enrolar os pães. A massa é pesada e cada pão é enrolado com sabores especiais de castanhas, passas, grãos, raízes e o que mais quisermos criar para incrementar e saborear ainda mais nosso pãozinho integral. Forno acesso e um cheirinho gostoso de pão quentinho começa a invadir a casa convidando para um delícioso café da manhã!

Esse fazer diário e constante, fazer a mesma coisa todos os dias, e procurar fazer sempre melhor é uma qualidade meditativa do meu ofício. Esse fazer com presença total de espírito me organiza, me integra e me faz cada vez mais valorizar o que é realmente bom.

Assim é o pão da confraria – orgânico, verdadeiro e integral.

Nascida da cozinha da minha casa, tão viva, tão experimental, tão inteira, a padaria tem por princípio propor um novo-antigo conceito no ato de comer pão – reunir as pessoas ao redor da mesa para se satisfazerem desse alimento sagrado e ancestral que alimenta o corpo e a alma, reacendendo em cada um esse círculo humano e divino que é a confraria.

A Confraria requer o compromisso de seus confrades para poder girar. Através de assinaturas mensais, ofereço aos confrades produtos artesanais produzidos por mim e escolhidos a dedo para compor um café da manha saboroso e saudável, são pães, manteiga, bolos, biscoitos, geléias, queijos e quitutes para fortalecer e alegrar o dia e nutrir a alma!

Essa maneira de atuar no mundo, me permitiu resolver o dilema de muitas mães modernas: como trabalhar fora e cuidar dos meus filhos? Antes de ser padeira, era professora em um pequeno jardim de infância, o que ganhava não era suficiente para arcar com as despesas da vida,  e não queria estar ausente da vida cotidiana de meus filhos. Estar dentro do mercado de trabalho, em um “emprego” convencional, seguramente remunerado, me consumiria muitas horas diárias e seguramente não supriria minhas necessidades anímicas, não poderia ser tudo o que quero: ser mãe, mulher, amiga, cozinhar, pintar, plantar, dançar… ser verdadeiramente feliz. Foi quando comecei a fazer pão. Era apenas uma maneira de incrementar a renda mensal fazendo algo que eu gosto e oferecendo alguma coisa boa para as pessoas, logo percebi que se eu realmente quisesse poderia me bancar e ir muito fundo com essa história! Comprei o forno, ajeitei a cozinha, arrumei os pães num cesto e agora estamos aqui!  Assim, daqui, da minha casa, no aconchego do meu lar, ao lado dos meus filhos eu proponho á vc: quer um pão fresquinho?

OS SONHOS SÃO GRANDES….e a cada pão concretizo e alimento um pouco cada um deles!

Bora criar, fazer, amar, que com alma dá tudo certo!


Chá de rosas

Os sonhos são grandes

A Confraria requer o compromisso de seus confrades para poder girar © foto www.galeriaexperiencia.com.br

Saindo do forno

...quer um pão fresquinho?

ghi, geléia de figo, de damasco...

gui, geléia de figo, de damasco...

filhos à mesa

aceita uma torta?

tem biscoitinhos, granola...

com mel, fica uma delícia :)

tem um bolo de maracujá também, experimenta?

Para comer com a alma

... e com os olhos!

...um cheirinho gostoso de pão quentinho começa a invadir a casa convidando para um delícioso café da manhã!

Lú e Lia - a caçula e inspiração

Leva umas rosas alaranjadas para enfeitar

Bora criar, fazer, amar, que com alma dá tudo certo!


Para quem quer o “pão da Lú”:

http://confrariadopao.wordpress.com/

Luciana Sapia
Confraria do Pão
Pães Artesanais
(0xx11) 3297-4247 | 7616-3943

PS. Acompanhe os próximos posts! O “pão da Lú” vai se multiplicar e trazer mais idéias e processos prá todo mundo colocar a mão na massa e FAZER coletivamente!

Flowerwallpaper | Da Florista


por admin
mil_fazeres

Em breve.

1024 | 1280 | 1680

Karine Rossi | Flores para voar


por Daniela Scartezini
Música, Palavras, flores

Ela saiu do interior de São Paulo com apenas um sonho: aprender a voar. Mas não poderia ser literalmente “voar”; o vôo de Karine também tinha que transcender,  transformar e libertar, tal qual o vôo da Fênix. Como ela faria isso? Através das palavras e da música. Foi na escrita e na música que a Karine, escritora e Dj, encontrou sua maneira de “voar”. Toda vez que me encontro com suas poesias, contos e mais recentemente com seus sets musicais, tenho a sensação que ela me oferece uma asa para que eu possa sentir o prazer de seu vôo, ou seria do vento no rosto? E transcendo, transformo, liberto.

Um dia, essa mulher me ofereceu um conto. Mal sabia ela o poder transformador de suas imagens. No conto “O Médico”, o escritor Rubem Alves diz que as imagens são a linguagem da alma. E Karine, nesse conto, transformou a minha. Imaginem que ao terminar o conto, disse-me assim: “…desejo que a florista do destino ponha a mào em cada folha da sua vida.”

Uma vez,  ouvi de de uma grande contadora de histórias uma frase que me marcou muito: “… cada palavra que a menina dizia, era uma flor no vazinho da alma de cada um…”

Talvez depois de passear pela criação de Karine, você concorde comigo que essa “menina” poderia muito bem ser Karine.

Com vocês, o conto “A Florista”, por Karine Rossi.

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A Florista

Tudo aconteceu num tempo – nem antigo nem moderno – quando o amor ainda era tema de todas as histórias.
Nessa época, uma florista bem moça perfumava a vila inteira com suas rosas, lírios e brincos-de-princesa (quase posso sentir … como é grande o poder da lembrança).
A florista subia as ladeiras escondida entre o cheiro das flores que ela mesmo plantava e colhia no quintal. O lugar não era grande, mas cada canto tinha tantas cores e fragrâncias que mais parecia um planeta-delicadeza.
Era uma jovem bonita, feliz e gentil, mas que tinha uma fraqueza: não sabia dizer não. Ah sim, claro… muita gente se aproveitava dela. Mesmo sem ter dinheiro, muitos lhe pediam as flores. E ela, a florista, sempre entregava… Sempre em troca de um sorriso.
Na descida da ladeira, a Florista viu um rapaz e – exatamente nessa hora – suas flores exalaram um cheiro tão forte que quase a fez cair tonta no chão. Recuperada do súbido, voltou a vê-lo. Baixou a cabeça. Ergueu-a de novo. Andou um pouco. Parou. Olhou para traz e se deu conta de que estava amando.
Pelas pontas dos pés descalços ela o seguiu. Descobriu sua casa e, todas as manhãs ainda escuras, voltava lá para florir a porta com suas melhores flores: as mais frescas, as mais bonitas, as mais cheirosas e as mais apaixonadas.
Dia após dia. Todos os dias.
Quando ela voltava na madrugada seguinte, as flores do dia passado já tinham sido recolhidas. E ela enchia tudo de novo de flores. Todos os dias.
Até que um dia ela voltou e ainda haviam flores por lá. Mesmo assim, ela floriu. E floriu todos os dias até que a rua inteira ficasse coberta de flores. Todos os dias.
Quando viu que ele se foi, tentou manter o sorriso. Mas o maço de flores que carregava murchou em seus braços. Desde esse dia, seu quintal viveu um inverno. Seco. Frio. Escuro. E a cidade inteira mudou; o perfume de petala adocicada, caule molhado e folha fresca se transformou em cheiro de gente com pressa, dinheiro amassado e romance rompido.
Mas o ciclo da vida sempre continua e ela voltou a sorrir. Escolheu as sementes mais ricas e plantou, uma-a-uma, na terra fértil do amanhã. As flores nasceram e ficaram prontas para seguir seu destino de embelezar as casas da cidade.
Num dia de muito azul e branco no céu, ela seguiu farta de flores. Vendeu quase todas: com algumas ganhou dinheiro, com muitas outras, sorrisos. No fim da tarde, só lhe restava uma flor: um único botão de rosa amarela. “Esta eu não vendo! Nem por todo o dinheiro do mundo, nem pelo mais belo sorriso”. E foi com a rosa para a casa, companheira agradável no caminho de volta. Aquela flor ela deu para si. Um carinho que cansou de esperar de alguém…
E foi nesse dia, quando aprendeu a dizer não, que – de longe – ela avistou um um homem alinhado no portão da sua casa. Sereno, camisa verde clara, chapéu de feltro branco… Se aproximou, cuidadosa, com medo de ouvir o que temia: “Boas tardes, senhorita florista… Vim para comprar esta flor”. Disse isso e abriu um sorriso tão lindo que a fez esquecer sua promessa. Sem demorar um segundo, ela lhe entregou.
Depois, com um pouco mais de demora, no momento seguinte ao de ver por dentro dos olhos dela, o homem lhe devolveu o botão. Foi incrível ver como ele se abriu durante a viagem entre as mãos… um percurso que durou a eternidade.
Ela reconheceu o cheiro dele. O sorriso. O cheiro era dele… ele estava de volta.
E isso foi tudo o que eu vi: o lindo fim de uma história em continuação.
Um momento tão sincero que me fez viver feliz para sempre.


Podcast Flores

Karine também uma pesquisadora de sonoridades e recentemente faz um trabalho como Dj. Você pode ouvi-lo no site Soundcloud. Esse Podcast “Flores” foi criado inspirado na A Florista! Muuuiito exclusivo e psicodélico, até :).

É colorido, charmoso, sonhador, platônico, perfumado, ousado… Hummm. Enfim, senhores, abram os ouvidos da alma e tenham um ótimo vôo!


Fazer é a própria poesia

Na real ou teoria, o que é poesia?

Eu não consigo explicar, só sei que é muito mais alto, largo e profundo

que os adornos da rima.

Poesia vem do latim POIESIS, que significa FAZER. E se fazer é poesia, fazer poesia é redundância (antes fosse na escrita, pois redundante é a vida que insiste em pensar sempre igual e não se descobre).

Portanto, poeme! A poesia emociona, respira, vivifica.

É a energia da ânsia da vida por si mesma.

Faça coisas impossíveis de explicar.

Pois a verdadeira poesia vai muito além das palavras. “

Karine Rossi


O livro-arte winterverno é uma parceria de Paulo Leminski com o poeta e artista João Suplicy (São Paulo: Iluminuras, 2001). É uma combinação de textos de Leminski com as imagens do artista plástico na configuração de haikais, ou poemas-desenhos - “a categoria mais plástica da poesia oriental”, segundo Blyth, escreve Rodrigo Garcia Lopes, com o intuito de “passar o perfume de uma idéia-emoção com brevidade, humor e sentido”. E continua: “ Os temas costumam ser os lances mais banais; coisas máximas vistas de um modo mínimo e vice-versa. Menos é mais. Por isso, tudo passa a impressão de um certo inacabamento, criando vazios que devem ser completados pelo leitor”. Trabalhos realizados no final da década de 80, mais precisamente a partir de 1988.


O Haikai

O haikai é uma pequena poesia com métrica e molde orientais, surgida no século XVI, muito difundida no Japão e vem se espalhando por todo o mundo durante este século. Com fundamento na observação e contemplação enfatizando o sentimento natural e milenar de apreciação da natureza através da arte, sentimento este inerente a todo o ser humano. O mais tradicional poeta deste estilo é Matsuo Basho, monge Zen que aperfeiçoou o estilo e divulgou suas obras no final do século XVII.

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.

Matsuo Basho (1644-1694)


A seguir, alguns poemas HaiKai criados por Karine, especialmente para A Florista @–;—

BOUQUET

Flor ofertada
Desabrocha na mão
Amor em botão


ILUMI_NADA

Vem sol, entra
É mais gozo que aparenta
Nessa pele, hoje sedenta
Que demorou pra entender
Que tipo de estrela é você

Karine Rossi


Karine Rossi é paulista, escritora, poetisa e DJ.

karinerossi@globo.com

@karinerossi

Karine Podcast

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