
Ouça Malika, antes mesmo do seu lançamento, no soundcloud.com/malikaone
Malika é música para além dos ouvidos. Ela vibra o corpo com seu grave poderoso e estimula os olhos com suas cores e texturas vivas. É um projeto novo (de idade e originalidade), ainda nem foi lançado. Mas está aqui por ativar tanto os sentidos.
Na verdade, Malika é Claudia Dorei, cantora e musicista há mais de uma década. É seu alter-ego, seu paralelo, sua versão mais colorida. Claudia canta em português, Malika em inglês. Mas mesmo em idiomas diferentes, ambas expressam o desejo por um mundo sem fronteiras.
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Malika, por Claudia Dorei


Desde pequena, sou fissurada por música. Quando ganhava algum dinheiro de natal dos meus avós, imediatamente comprava um CD. Canções africanas, indianas, americanas, brasileiras, inglesas, islandesas, de tudo eu gostava. A princípio, amava ouvir, mas aos poucos fui descobrindo que também amava inventar sons. Estudei bateria aos 12 anos, depois passei para o violão, descobri o trompete na escola, comecei a meditar e fui tocar cítara, mridangam (instrumento de persussão indiano), címbalos, e finalmente, por influência do meu tecnológico pai, mergulhei no mundo maravilhoso dos computadores. Tudo isso ficou dentro de mim e hoje crio sons, trilhas e discos.
A música tem o poder de alterar meu estado de espirito. Fico pensando que loucura é essa coisa que não precisa existir, não tem nenhuma necessidade prática, mas que está em todos os lugares!
Para mim, ela está em tudo e surge do nada. Acabei de terminar um disco inspirado nos sons e texturas que meu querido parceiro musical, Cavalaska, compartilhou comigo.
Além de ser um incrível produtor de música eletrônica, Cavalaska é meu professor de Yoga. Entre uma aula e outra, ele mostrava bases para que eu colocasse melodias e letras. É o nosso primeiro disco juntos, e nesses mais de 10 anos de profissão, nunca foi tão fácil e intuitivo criar. Eu ligava as caixas de som no meu estúdio, apagava a luz, fechava os olhos, ouvia, sentia e uma paisagem surgia na minha mente. A partir desse cenário, letra e melodia fluiam como água.
Dessa experiência sensorial e muito especial, nasceu um projeto alheio à Claudia Dorei, chamado Malika – uma espécie de alter-ego, com som e imagem próprios. É como se fosse outro alguém, um ser (não necessariamente humano) que manifesta sua energia através da música.

O disco ainda não foi lançado. Estamos trabalhando no encarte, junto com os talentosíssimos Paulo Bueno e Uibirá Barelli, que por identificação sonora, criaram o visual do projeto. Siva Rama fez a maquiagem, Yuri Pinheiro fez as fotos e, em breve, faremos um show de lançamento. Por enquanto, você pode ouví-lo aqui. Boa viagem!
Malika é uma proposta diferente. Não é racional, é sensitiva. Para clarear um pouco mais essa história, aqui está um trecho da conversa que eu tive com Claudia Dorei :)
Karine
Me fala uma coisa, Claudia: quem é Malika? É o seu alter-ego?
Claudia Dorei
É
Karine
E por que ela tem esse visual?
Claudia Dorei
Como ela não é Claudia Dorei (eusinha de nascença), criamos um personagem, não só visual, mas também no jeito de cantar. É muito diferente do jeito que eu canto, em português. Então brincamos com esse ser que poderia ter vindo de outro planeta.
Karine
Então Malika é um ser de outro tempo-espaço?
Claudia Dorei
Pode ser…
Karine
E por que ela canta em inglês?
Claudia Dorei
Canta em inglês porque se cantasse na língua dela ninguém entenderia! rs
Karine
E o que ela diz? Qual é a mensagem de suas músicas?
Claudia Dorei
Embora também seja da terra, ela tem um olhar de fora sobre nosso planeta. Não consegue entender por que existem fronteiras, países… Ela quer que as pessoas esqueçam seus problemas, esqueçam que a lei da gravidade puxa as coisas para baixo. Malika quer celebrar a vida.
Karine
Só mais uma coisa: você intuiu Malika? Sonhou? Ou a construiu conscientemente?
Claudia Dorei
Eu intuí. Foi um processo muito louco e muito rápido… sem algum senso crítico racional. As músicas foram feitas em menos de 30 minutos cada uma – letra e melodia!
GET TOGETHER – Malika
this is the final message
the more you give
the more you get
let’s get together at this celebration of life
gravity try to pulls us down
so let’s
JUMP
they’re not gonna catch us now
for consciousness is our weapon
we are all one
on this round planet earth
o let’s get together in this truthful family
you are so welcomed here
let’s spread love
good vibrations
let’s be the ones who choose
not to be the chosen ones
let’s spread love
good vibrations
LOVE
Quer ouvir Claudia Dorei?

Eu e meu corpo ainda não nos conhecíamos. Há tempos que eu vinha buscando no Yoga uma prática que fortalecesse meu corpo, minha saúde e pacificasse minha mente. Depois de passar por algumas escolas e um pouco frustrada com a experiência impessoal dos grandes centros, encontrei um amigo que disse que eu “tinha que conhecer a Marina”. Dizia que nós nos parecíamos muito e que eu adoraria as aulas dela. E foi assim, depois de alguns desencontros, que acredito, no tempo certo, encontrei Marina e seu Studio Iyengar Yoga. Eu buscava uma cura. E tenho certeza que nessa travessia, seu olhar atento e sua forma de ensinar, tentando conhecer a história e corpo de cada um, foram responsáveis pela cura que depois de alguns meses alcancei. Aprendi com ela (e continuo aprendendo!) que muitas vezes nosso corpo é uma porta de acesso à alma.
É com muita gratidão e alegria por compartilhar que convido vocês a conhecerem a história e o fazer de Marina.
Marina foi educada pelo método de educação Waldorf e se direcionou em busca da evolução pessoal e espiritual desde pequena. Preocupada com o meio ambiente se formou como turismóloga mas sua sede por arte a fez cursar também Comunicações das Artes do Corpo na PUC/SP. Aos 17 anos, teve seu primeiro contato com o Yoga, se apaixonou e nunca mais largou a prática. Estudou com renomados professores pelo mundo e passou longas temporadas na India, com a família Iyengar, onde se formou como professora de Iyengar. Sempre em busca de aprimoramentos formou-se também em Anatomia Emocional com Regina Favre. Hoje, é coordenadora do Studio Iyengar Yoga, lugar especial para encontrarmos com o corpo e quem sabe, com a alma.
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Marina Athanas, por ela mesma.
Corpo, emoções, sentidos. Sinto a vida como uma mistura, um grande universo de sensações, cheiros e sabores. Nosso corpo, nossas expressões são um reflexo da nossa leitura interna. Primeiro veio o surfe, a água. Minha mãe me conta que quando estava grávida ela não saia da água. E desde que nasci estou imersa nela. O surfe me conecta com o sentido de liberdade, fusão e entrega.

A Pedagogia Waldorf foi minha grande aliada na ênfase que dou aos sentidos em minha vida. Frequentei desde a primeira infância uma escola que me permitiu entrar em contato com as artes, a música, o teatro. Um ambiente de muita criatividade. A semente foi plantada nessa época e me permitiu enxergar a vida com uma lente bem colorida.

O esporte (além do surfe, a capoeira) me conduziu a uma necessidade de ir mais fundo em mim mesma. E, aos 17 anos, o yoga entrou na minha vida. Fiz minha primeira aula e nunca mais parei. Foi minha professora na época e, hoje, minha grande amiga, quem disse que eu seria professora de yoga. Não dei muita atenção, mas algum tempo depois fui fazer formação em Iyengar Yoga e, quase sem perceber, estava dando aulas.
Viajei pelo Brasil e pelo mundo em busca de aventuras e conhecimento. Fui para Índia, onde estudei com renomados professores. Fiz inúmeros retiros de yoga e meditação, que mostraram a necessidade de estar conectada aos meus sentidos e plena no momento presente. Aprendi a importância de fazer o meu melhor aqui e agora.
A prática do yoga transforma nosso corpo, nos permite desenvolver uma relação mais íntima com os sentidos. Refinando nosso olhar interno, sensibilizando nosso paladar, tornando o corpo forte, flexível, cheio de vitalidade e saúde. Quando transformamos o nosso corpo, conscientemente transformamos também nossa forma de pensar, agir e ser.

Honro a oportunidade de estar viva, pulsando, existindo, apreendendo com meus erros e acertos e fazendo de cada dia uma forma de estar mais aberta à vida e às minhas relações.





Studio Iyengar Yoga Marina Athanas
Rua Fidalga 545 sala 3, 05432-070 São Paulo, Brazil
11 57981766

Maíra Duarte tateia, cheira, sente o gosto e sabe ouvir a vida. É uma mulher que tem a coragem e a sabedoria de acolher sua intuição e usa esse sexto sentido – que talvez seja a soma dos outros – para oferecer a mulheres em gestação, parto e pós-parto, conforto e cura para o corpo e para alma.
Nossos caminhos se cruzaram enquanto me preparava para meu primeiro parto, num encontro de gestantes. Mal sabia o que era uma doula (www.doulas.com.br), mas ela despertou algo forte e sem nome em mim. Díficil seria não deixar-se encantar por aquele ser vibrante, com olhos de mar, tão transparentes que permitem a gente enxergar a alma sem qualquer esforço.
Por indicação da obstetra, cheguei a convidar outra doula para me acompanhar. Passei meses estabelecendo um vínculo com essa pessoa, mas poucas semanas antes do nascimento da minha filha, os sonhos recorrentes com a Maíra não permitiram que eu negasse o que minha intuição me mostrou naquele primeiro instante: era Maíra que estaria comigo. Hoje posso dizer, e digo sempre que posso, que muitas coisas poderiam ter sido diferentes no meu parto, mas nunca abriria mão de tê-la por perto.

O toque de Maíra ultrapassa os limites táteis da pele e dos órgãos que massageia, é capaz de dissolver medos, ansiedades, promover encontros e reencontros. Percebe e trata cada corpo de forma singular, porque cada um tem a sua própria história.
Terapeuta e doula, ela emprega seu saber na preparação e no uso de óleos quentes, aromáticos, banhos de ervas e verdadeiras poções mágicas. É alguém que traz os sentidos à flor da pele e exala no sorriso fácil a alegria de viver fazendo o que dá prazer: entregar-se ao cuidado com mães e bebês ainda na barriga.

Ela soube reconhecer esse caminho deixando seu corpo ser levado e lavado pelas águas – do mar da Bahia, do Ganges e de seus dois partos. Formada na Índia em terapia ayurvédica, um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade, foi o nascimento de seus dois filhos que a fez escolher de vez o universo feminino para trabalhar.
Ao experimentar no próprio corpo a força de gerar e parir de forma natural, se abriu ainda mais à percepção sensorial e resolveu devolver à vida aquilo que aprendeu com ela, ajudando outras mulheres a dar à luz seus filhos. Conheça a história de Maíra, contada por ela mesma, e perceba que a grande sabedoria é sentir plenamente.
Dance pelo rim, me dizia um professor de dança. E eu dançava, levada por aquela vibração específica. Ele propunha exercícios e a gente realmente sentia o pulsar singular de cada órgão. Achava aquilo incrível e, naquela época, comecei a entender algumas coisas a respeito da cura. Senti no meu próprio corpo como caminha a vitalidade e como ela pode se acumular em órgãos, articulações e espaços internos.
Havia me separado a pouco tempo e deixado meus três empregos. Estava fechando muitos ciclos e procurando entender como entraria no próximo. Resolvi viajar o sul da Bahia pra ver o mar, meditar e pensar na vida. Fui para um vilarejo sem energia elétrica chamado Caraíva, onde a gente aprende a enxergar no escuro, tomar banho frio e ler à luz de velas. Por lá fui ficando, até que o dinheiro acabou. Um amigo que voltaria a São Paulo me emprestou o pouco que tinha. Eu sentia que ainda não devia voltar. Fiquei, mesmo sem saber como faria para me manter.
Tive a idéia de vender salada de frutas na praia. Comprei frutas frescas, coloquei-as na bancada da cozinha e me recolhi. Na manhã seguinte, vi pedaços de mamão esmagados pelo chão de areia, entre pegadas redondas. O caseiro me contou que, durante a madrugada, um jegue entrou na cozinha e comeu as frutas. Caramba!, pensei. “Esse animal comeu todo meu capital inicial!!” Senti raiva e medo. Estava sem dinheiro nem para voltar e meu plano não tinha dado certo. “O que eu faço agora?!“
O dono da casa em que eu me hospedava disse: “quando eu não sei o que fazer, desço o rio”. Peguei uma bóia bem grande e fui para o Rio Caraíva. Correnteza me levando até o mar. Olhando o céu, chorando, limpando o coração, deixei o corpo seguir no curso do rio. E entreguei para o mar os meus medos. No caminho fui fazendo uma retrospectiva mental. Lembrei das coisas fundamentais, das pessoas fundamentais, de minhas aulas de dança e das massagens que lá aprendi.

Chegando na praia me veio uma ideia. Em uma camiseta escrevi: “Massagem! Fale comigo” e desenhei uma mão aberta, com uma espiral no centro. Pedi umas dicas básicas para uma amiga massagista que estava por lá, relembrei o que já sabia e confiei nos meus sentidos.
Saí pra andar na praia vestindo a camiseta. Logo uma pessoa se aproximou interessada, depois outra e outra… Foi um mês de bastante trabalho. Voltei com dinheiro no bolso e sabendo o primeiro passo a dar no novo ciclo: estudar Ayurveda*.
Praticava meditação diariamente e, logo que cheguei a Sampa, tive uma forte intuição por duas vezes durante a meditação: procurar o Kehl (um amigo querido). Na primeira vez não dei bola. Na segunda achei bom ouvir. Marcamos um café e, nesse dia, Kehl me apresentou ao Gil, seu filho, terapeuta corporal, com quem eu logo firmei parceria de trabalho e de vida.
Nós nos unimos a uma homeopata ayurvédica para trabalhar, enquanto eu iniciava os estudos em ayurveda. O Gil já havia se formado e nosso trio deu muito certo. Ia observando o trabalho deles, praticando os procedimentos e estudando. Assim nasceu a terapeuta em mim.

Com os sentidos à flor da pele e muito amor circulando, logo vi que algo estava diferente. Gil e eu já não seríamos apenas dois. Nosso primeiro filho nasceu de um parto natural desafiante e fortalecedor. Fiquei impressionada com o potencial terapêutico concentrado em um (simples?) evento fisiológico. Senti gratidão pelas pessoas que me auxiliaram a vencer o medo de parir, que era o maior da minha vida. E dessa gratidão veio a vontade de fazer o mesmo com outras mulheres. Mas ainda não me sentia segura pra acompanhar partos e continuei trabalhando com ayurveda para todos.
Tive o segundo filho, num parto natural rápido, intenso e prazeroso. Esse parto abriu uma porta, me trouxe firmeza e alguma compreensão a respeito da entrega. Fiz o curso de doula e de educadora perinatal. Logo em seguida comecei a acompanhar partos. Passei a atender apenas gestantes e mulheres que acabaram de ter seus filhos. Estou realizada nesse caminho há alguns anos.

Acompanho toda a gestação em um pré-natal terapêutico, paralelo ao médico, com massagens, conversas e orientações ayurvédicas. Procuro criar um espaço aberto para a gestante se informar, trabalhar os medos, se preparar física e emocionalmente para o parto e o pós parto. Esse espaço é também para os companheiros (ou companheiras em alguns casos) encontrarem seu lugar nisso tudo. Assim, aprendem a cuidar das mulheres e de si, entendendo melhor esse processo do qual por décadas foram excluídos.
As massagens são momentos de forte conexão entre o bebê e a mãe. Sinto-me muito ligada a eles particularmente nessa hora. Massagear um bebê dentro da barriga de sua mãe durante vários meses estabelece um vínculo profundo. E assim vamos juntos trilhando um caminho para aquela gestação. Isso pode envolver muitas conversas, banhos terapêuticos, orientações alimentares e de práticas respiratórias. Cada gravidez traz uma demanda que a gente vai sentindo enquanto a gestação flui.
Olhando de fora, parece que foi de uma hora pra outra que tudo aconteceu. Fiz uma formação de dez dias, virei doula e imediatamente comecei a trabalhar muito. Dia desses uma parteira amiga minha falou: Maíra, sua carreira como doula foi meteórica! Sei que ela não conhece toda a história, a peleja sensorial desse processo formativo.

Desde os tempos do tablado empoeirado das aulas de dança, minha formação estava acontecendo. Precisei de um jegue faminto que me empurrasse pra vida e de muita cara-de-pau pra sair vendendo massagem na praia. Precisei ir pra Índia estudar, enxergar o diferente como um caminho e sair viajando sem rumo, para me abrir pra voz da intuição.
Precisei parir duas vezes, porque uma não foi o suficiente para confiar. Ir tateando, cheirando, sentindo o gosto de cada uma dessas experiências, para só assim, anos depois, começar a entender em que tom soa minha canção. Não foi meteórico. Demorou. Foi no tempo necessário. E foi bom.
Às vezes, acompanhando partos, me lembro daquela situação em que entreguei meus medos para o mar. Parindo é meio isso que a gente precisa fazer. Deixar as ondas das contrações virem e entregar o corpo pra elas. A solução sempre se apresenta em seguida, porque entrega é abertura e quando nos abrimos, tudo o que precisamos chega até nós. Inclusive os bebês!

Fotos: Gleice Bueno
Para quem quiser conhecer o trabalho de Maira, aí vão seus contatos:

Há quem pense que fotografia se faz com câmeras. Alguns, mais atentos, podem achar que ela se faz com os olhos – os de quem retrata e os de quem observa a imagem depois de captada e exposta. E há pessoas que
são capazes de encontrar na realidade um diálogo com a alma. Para isso não basta ver, é preciso sentir.
Quando a gente mergulha no mar de Marina, da Paula Marina, a gente vai além da linda aquarela de cores, a gente sente o sal na pele, vê a força do vento e a alegria das ondas. Encara o medo, percebe a imensidão e respira a profunda calma do barulho do mar… A fotografia dessa pernambucana/carioca/paulistana é um retrato dela mesma e também um convite para uma experiência intensa para quem quiser, pelo olhar, despertar imaginação, memória e sentidos.

- De onde você vem Paula? Sua origem tem influência em seu trabalho?
Sim, com certeza ! Nasci em Recife (PE) e morei no Rio durante os
primeiros cinco anos da minha vida e minhas primeiras memórias são
desta fase. Lembro-me direitinho de ir à praia , pequenininha, e ficar
olhando as ondas da praia de Copacabana. Para mim eram gigantes e
amedrontadoras, mas fascinantes ! O fascínio continua até hoje, o
medo virou respeito, admiração, tesão.
- Por que a fotografia?
Não acho que exista um porquê para a fotografia. Apenas é. Sinto-me à
vontade fotografando, me dá um prazer imenso. Gosto do processo de
fotografar, de pensar o que eu quero, de juntar as imagens e ver se
consegui contar a história, de transmitir um sentimento, causar uma
emoção. Fotografo o tempo inteiro, mesmo sem câmera. Vou olhando,
observando e fotografando. Faz parte de mim.
- Você teve um mestre em seu caminho?
Não exatamente. Admiro o trabalho de muitos fotógrafos, mas nunca tive
um mestre, alguém que me guiasse neste sentido. Estudo, faço cursos,
leio, procuro saber sempre mais e estou sempre buscando referências
nas várias vertentes da fotografia e também fora dela, como na
literatura. Dos admirados posso citar Ernst Haas , Sebastião Salgado, Annie Leibovitz, Cartier-Bresson,
Pep Bonet , Pedro Martinelli, Harry Gruyaert, Elliot Erwitt, Martin Parr, só para citar
alguns poucos.
- Para onde você mais olha quando fotografa?
Além do mar, gosto muito de fotografar pessoas, fazer retratos, contar
histórias de personagens, fazer com que as pessoas se sintam bem na
frente da câmera, valorizadas. É uma delícia quando consigo isto,
quando alguém se sente bem ao se ver fotografado e solta um sorriso
que me revela que eu consegui.
- Há uma câmera ou lente mais fiel aquilo que você vê?
Gosto muito de trabalhar com lentes grande angulares que incluem mais
elementos nas imagens e também nos forçam a chegar mais perto do
assunto principal. Quanto à câmera não tenho uma preferência. Lógico,
trabalho com o que tenho e me adapto à situação. Mas tudo depende do
que estou fotografando e o que quero mostrar.
- Você é o tipo de fotógrafa que olha para a realidade ou prefere
inventá-la? Em outras palavras, a fotografia vem mais de dentro ou de
fora?
Vem de dentro, sem dúvida! A fotografia é essencialmente uma
interpretação do que o fotógrafo vê. Eu vejo, interpreto e fotografo.
Por mais fiel que queira ser à realidade estarei sempre dando minha
visão. Os melhores fotógrafos são aqueles que conseguem passar em suas
fotos o que vêem e sentem.
- Você costuma dizer que brincava de fotografar e agora faz isso de
um jeito mais sério. Transformar o hobby em atividade profissional
valeu a pena? O que essa escolha exigiu de você?
Sim, está valendo à pena. Exigiu que eu me adequasse a uma nova
realidade, porque tenho que pensar a fotografia profissionalmente, de
acordo com o que o cliente quer e nem sempre isto é fácil. Não é mais
somente o que quero, é o meu olhar adaptado ao trabalho, ao cliente, à
publicação. Exige estar sintonizado com técnicas, equipamentos e uma
atualização constante. É um mercado que anda muito rápido.
- Ainda que o tema seja o mesmo – por exemplo o mar do ensaio
publicado aqui - suas imagens ora são quentes e fortes, ora calmas e
sublimes aquarelas. Nos dois casos, a cor é um elemento bastante
importante em sua composição, certo? A escolha é mais cerebral ou
sensível?
Totalmente sensível. Não penso nisso quando estou compondo uma foto.
Ela quase que se faz sozinha. Vou muito mais pelo prazer da criação do
que pela razão da utilização de cores quentes e frias, por exemplo.
Olhei, gostei, cliquei. É mais ou menos assim !
- Há uma forte energia de vida em seu trabalho, muitas vezes quase
sexual. A fotografia pra você é uma experiência exclusiva do olhar ou
sinestésica?
Acho que é uma mistura. Começa pelo olhar que evoca outros sentidos e
emoções. Uma fotografia pode ter cheiro, sabor, alegria, amor, ódio,
revolta. Fotografia tem que ter emoção. Para mim uma foto técnicamente
perfeita que não cause nada não é uma boa foto, mas uma foto nem tão
boa tecnicamente que te faça lembrar do cheiro do bolo que a sua mãe
fazia quando você era criança é uma grande foto porque alcançou seu
objetivo: fez você sentir.

Essa é uma história para você incorporar. Incorporar, diz-se, vêm de assumir forma, tomar corpo. Ou me agrada tanto mais: reunir intimamente. Como ela mesma vai te contar, Juliana vêm assumindo forma e dando corpo ao seu trabalho desde que nasceu. Trabalho esse, de resistência. Não há como separar seu trabalho de sua vida/história. Juliana não realiza um trabalho, ela mesma é o seu fazer. Resistir, foi assumir o que é e não deixar-se corromper. Não fazer o que é, não faria sentido. Pior, não seria possível. O que ela faz? Não queremos rótulos. A presença de Juliana faz pensarmos o tempo todo nisso. Por que tantos nomes, formas e corpos pré – concebidos? “Queremos descontruir, transformar” – ela diz. Te convido a reunir-se intimamente com o fazer de Juliana, deixar-se incorporar por sua história. Aqui, um desejo forte que ela transforme um pouco a sua. Que sua forma possa encontrar seu corpo e ambos possam dançar a liberdade. Que seu fazer seja você. Nada menos do que isso.
Dani Scartezini@–;—
Vídeos Fernando Camargo e Marcelo TomasiniNossa História, por Juliana Porto
Era hora de trabalhar. O mundo esperava de mim e eu também, ainda estava em processo de formação. Por escolha resolvi mergulhar nesse processo da maneira mais legitima que pude, fui guiada pelas minhas possibilidades e pelo meu prazer, findei o trajeto após 8 anos. Em 2008 conclui o curso de Comunicação das Artes do Corpo – PUCSP, com habilitação em dança e performance. Lá me formei e me transformei inúmeras vezes, aprendi que os passos do caminho são tão importantes quanto o ponto de chegada. Saí de lá com a incerteza da arte. Com a sensação que essa palavra de tão cheia se tornava vazia. E as velhas perguntas rondavam meu corpo preguiçoso de resposta. Performances, danças, cenas, intervenções, não satisfaziam naquele momento meu desejo de criar. Todo esse universo se tornava cada vez mais distante pra mim. O desejo de trocar com o mundo era intenso e eu me questionava sem cessar de que maneira conversaria com este mundo. Buscava na arte um acontecimento, uma relação, uma transformação, uma vida, um tempo presente, um pulso. Olhei a minha volta e não encontrei o que fazer, me sentia incompetente para realizar as possibilidades de trabalho que conhecia. Foi quando, por necessidade e desejo, o territórios do corpo se revelou pra mim depois de alguns anos de seu nascimento, no dia quatro de novembro de mil novecentos e oitenta e um, momento em que nasci. O territórios do corpo propõe um encontro com o corpo de si, com o corpo do mundo. Ele tem medo das categorias e vive fugindo das definições. Acredito muito na singularidade de cada corpo, acredito que os ossos, os sonhos, os rins, os pés, os pulmões, o coração, o fígado, a respiração, as mãos, os músculos, o pensamento, tecem paisagens criando a experiência de ser corpo vivo no mundo. O trabalho tem pontos de partida e adquire diversas formas a cada corpo que o procura. Certa vez ouvi uma pessoa dizer palavra forte. Tive receio em me apresentar, com timidez disse olá. Um pouco depois apresentei meu fazer para ela que me disse: “tenho interesse que o seu trabalho exista, pois assim como o meu ele é de resistência”. Sim, resistimos a anestesia de hoje, resistimos em submeter todos os nossos desejos ao capital, resistimos em sermos aquele que os outros querem que sejamos, resistimos em sermos propriedade de algo ou de alguém, resistimos em sermos puro produto cego, surdo e mudo do nosso tempo, resistimos em sermos nós. Queremos encontrar com a legitimidade e a honestidade que nos é própria, queremos trabalhar para pulsar, para alimentar a nossa potência de existir, queremos realizar a vida em corpo que dança, queremos a intimidade, vem do latim intìmus, ‘o mais profundo; o mais interior; completamente interior etc.’, conexo com inter ‘no interior de dois; entre’; superposição; aproximação; introdução, transformação’, queremos buscar, queremos errar. Nada sei sobre aquele corpo que me procura, nada quero saber antes que ele me dê licença. Repudio diagnósticos prematuros e fechados. Acreditamos na possibilidade e na transformação. Acreditamos na memória. Há tempos insisto na potência do fazer junto, buscando alimento na solidão de ser corpo único. Certa vez ouvi uma pessoa dizer palavra suave. Me entreguei às suas histórias e escutei : “na minha terra existem as pessoas da pessoa e se você tiver a coragem de olhar realmente para uma pessoa, vai ver que cada encontro revela uma pessoa de suas pessoas”. Buscamos a autonomia dos nossos passos, mas percebemos que eles não criam travessias isoladas. Existem muitos territórios para se experimentar, para atravessar, para habitar… Existe muita potência adormecida vivendo nos corpos da cidade…
[sobre o áudio |texto narrado e violão|: é uma composição de depoimentos sobre o territórios do corpo por diferentes pessoas que por ali passaram, a elas eu agradeço imensamente.]
FotosGleice Bueno
Para conhecer Juliana:
juliana.montellano@gmail.com
11 9231 3332
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