Paula Marina | Flores para mergulhar


por Gleice Bueno
Fotografia, flores

Há quem pense que fotografia se faz com câmeras. Alguns, mais atentos, podem achar que ela se faz com os olhos – os de quem retrata e os de quem observa a imagem depois de captada e exposta. E há pessoas que
são capazes de encontrar na realidade um diálogo com a alma. Para isso não basta ver, é preciso sentir.

Quando a gente mergulha no mar de Marina, da Paula Marina, a gente vai além da linda aquarela de cores, a gente sente o sal na pele, vê a força do vento e a alegria das ondas. Encara o medo, percebe a imensidão e respira a profunda calma do barulho do mar… A fotografia dessa pernambucana/carioca/paulistana é um retrato dela mesma e também um convite para uma experiência intensa para quem quiser, pelo olhar, despertar imaginação, memória e sentidos.


Termine de colher essa história na Revista Sentidos



Aqui você ainda lê nosso bate-bola com a fotógrafa


- De onde você vem Paula? Sua origem tem influência em seu trabalho?

Sim, com certeza ! Nasci em Recife (PE) e morei no Rio durante os
primeiros cinco anos da minha vida e minhas primeiras memórias são
desta fase. Lembro-me direitinho de ir à praia , pequenininha, e ficar
olhando as ondas da praia de Copacabana. Para mim eram gigantes e
amedrontadoras, mas fascinantes !  O fascínio continua até hoje, o
medo virou respeito, admiração, tesão.


- Por que a fotografia?

Não acho que exista um porquê para a fotografia. Apenas é. Sinto-me à
vontade fotografando, me dá um prazer imenso. Gosto do processo de
fotografar, de pensar o que eu quero, de juntar as imagens e ver se
consegui contar a história, de transmitir um sentimento, causar uma
emoção. Fotografo o tempo inteiro, mesmo sem câmera. Vou olhando,
observando e fotografando. Faz parte de mim.


- Você teve um mestre em seu caminho?

Não exatamente. Admiro o trabalho de muitos fotógrafos, mas nunca tive
um mestre, alguém que me guiasse neste sentido. Estudo, faço cursos,
leio, procuro saber sempre mais e estou sempre buscando referências
nas várias vertentes da fotografia e também fora dela, como na
literatura. Dos admirados posso citar Ernst Haas , Sebastião Salgado, Annie Leibovitz, Cartier-Bresson,
Pep Bonet , Pedro Martinelli, Harry GruyaertElliot Erwitt, Martin Parr, só para citar
alguns poucos.


- Para onde você mais olha quando fotografa?

Além do mar, gosto muito de fotografar pessoas, fazer retratos, contar
histórias de personagens, fazer com que as pessoas se sintam bem na
frente da câmera, valorizadas. É uma delícia quando consigo isto,
quando alguém se sente bem ao se ver fotografado e solta um sorriso
que me revela que eu consegui.


- Há uma câmera ou lente mais fiel aquilo que você vê?

Gosto muito de trabalhar com lentes grande angulares que incluem mais
elementos nas imagens e também nos forçam a chegar mais perto do
assunto principal. Quanto à câmera não tenho uma preferência. Lógico,
trabalho com o que tenho e me adapto à situação. Mas tudo depende do
que estou fotografando e o que quero mostrar.


- Você é o tipo de fotógrafa que olha para a realidade ou prefere
inventá-la? Em outras palavras, a fotografia vem mais de dentro ou de
fora?

Vem de dentro, sem dúvida!  A fotografia é essencialmente uma
interpretação do que o fotógrafo vê. Eu vejo, interpreto e fotografo.
Por mais fiel que queira ser à realidade estarei sempre dando minha
visão. Os melhores fotógrafos são aqueles que conseguem passar em suas
fotos o que vêem e sentem.

- Você costuma dizer que brincava de fotografar e agora faz isso de
um jeito mais sério. Transformar o hobby em atividade profissional
valeu a pena? O que essa escolha exigiu de você?

Sim, está valendo à pena. Exigiu que eu me adequasse a uma nova
realidade, porque tenho que pensar a fotografia profissionalmente, de
acordo com o que o cliente quer e nem sempre isto é fácil. Não é mais
somente o que quero, é o meu olhar adaptado ao trabalho, ao cliente, à
publicação. Exige estar sintonizado com técnicas, equipamentos e uma
atualização constante. É um mercado que anda muito rápido.


- Ainda que o tema seja o mesmo – por exemplo o mar do ensaio
publicado aqui -  suas imagens ora são quentes e fortes, ora calmas e
sublimes aquarelas. Nos dois casos, a cor é um elemento bastante
importante em sua composição, certo? A escolha é mais cerebral ou
sensível?

Totalmente sensível. Não penso nisso quando estou compondo uma foto.
Ela quase que se faz sozinha. Vou muito mais pelo prazer da criação do
que pela razão da utilização de cores quentes e frias, por exemplo.
Olhei, gostei, cliquei. É mais ou menos assim !


- Há uma forte energia de vida em seu trabalho, muitas vezes quase
sexual. A fotografia pra você é uma experiência exclusiva do olhar ou
sinestésica?

Acho que é uma mistura. Começa pelo olhar que evoca outros sentidos e
emoções. Uma fotografia pode ter cheiro, sabor, alegria, amor, ódio,
revolta. Fotografia tem que ter emoção. Para mim uma foto técnicamente
perfeita que não cause nada não é uma boa foto, mas uma foto nem tão
boa tecnicamente que te faça lembrar do cheiro do bolo que a sua mãe
fazia quando você era criança é uma grande foto porque alcançou seu
objetivo: fez você sentir.

Outras, Outra, eu


por A Florista
Fotografia, as rosas falam, flor do dia

por Eliza Capai

Já tinha para lá de meia hora que não passava nenhum humano naquela estrada de terra no meio do fim do mundo. É engraçado como sempre falamos que o ‘fim do mundo’ são os lugares que não tem prédios gigantes, gente andando rápido e carros engarrafados. Pois bem, lá cercando a estrada do fim do mundo tinha um campo de florzinhas pequenininhas, branquinhas com umas montanhas no fundo. Como não tinha ninguém buzinando, ninguém me esperando, nem mesmo nenhum relógio que me avisasse o fuso horário local pedi para parar. O motor desligou: silêncio.

Era sul da Etiópia, eu viajava há cinco meses e me aproximava daquela região famosa chamada Vale do Rio Omo de onde se espalham .pps com fotos de pessoas pintadas. O 4×4 parou no meio da paisagem, sem viva alma, eu desci com câmera e tripé e entrei naquela calma. Passa borboleta, anda nuvem, venta. Verde, azul, branco, amarelo: fiz as imagens comemorando entrar numa outra dimensão, naquele tempo que é parte de nós e não nosso dono. Feito os clipes, fecho tripé, viro para o carro e observo um grupo de pessoas lá me olhando.

Já tinha mais de mês que eu era alvo de curiosidade.  Tinha começado a entrar em terrenos sem turismo de massa e desde que uma criancinha ficou me olhando e começou a dar passinhos para trás até não aguentar mais e começar a chorar com medo daquele ser desbotado, eu havia entendido que ali a Outra era eu. E embora tivesse feito tudo para deixar em casa – jogar na privada e dar descarga – a capa de preconceito e de arrogância cultural que fui recebendo e construindo em toda a vida, uma parte destes ensinamentos todos tinham me acompanhado ali escondidinhos na pele amarelada que se julga branca – que mesmo sem querer, que mesmo não querendo mesmo, tem a mania de inicialmente se julgar melhor que os mais escuros, melhor que os menos ‘civilizados’, estressados, apressados e consumistas: “Definitivamente, nós que sabemos aonde vamos, que progredimos e trabalhamos duro – 12, 14 horas diárias -para produzir coisas e poder comprar outras – várias outras e em belas embalagens! – nós sim sabemos como é que tem que ser”.

Com minha superioridade técnica em equipamentos de ultima geração compactos fui me aproximando do carro. Quando vi aqueles seres comecei a ser invadida por um deslumbramento: o tal do exótico que costuma parear com a arrogância tentando balanceá-la. As mulheres eram pretas, pretíssimas. Os peitos eram compridos, fartos e desciam pelo corpo. Uma tinha um pescoço grande e para fazer graça pulava na frente da câmera até quase entrar na lente. Os cabelos eram enroladinhos sararás. Os dentes branquíssimos. Algumas delas se vestiam com colo a mostra e roupas de nosso mundo na parte de baixo. Outras com camisetas meio masculinas e velhas. No colo, na cabeça, nos braços muitas missangas. Na orelha algumas tinham botões, no colo pingentes de correia de relógio.

Meu pensamento primeiro foi: “que gente engraçada, usam tudo errado…. botão é na camisa, pulseira – óbvio! – no pulso”.
Não tínhamos nenhum idioma comum; verbalmente compartilhávamos em nosso vocabulário de uma única palavra: birr…  o nome da moeda etíope. Elas me pediam dinheiro para eu tirar foto. Eu não podia ir dali sem registros, me dizia meu lado que amava o exótico. Paguei pelas imagens como faz a gente do meu mundo, que paga por tudo que deseja, e tirei as fotos, fiz vídeos, olhei elas com uma curiosidade de quem pousa em outro planeta.

Aí começou o milagre. Elas fizeram uma roda ao meu redor, me olharam de perto, me tocaram inteira: passavam a mão naquele cabelo castanho ondulado, apalparam aquele peito pequeno,  comprimiam a barriga, testavam a rigidez da bunda. Elas queriam sentir do que era formada, qual era a textura daquele ser estranho. Eu me diverti sendo centro da exploração e naqueles minutos eternos fiquei imaginando como poderiam ser mais lindas as trocas se em vez de “olhar, não entender e julgar” a gente simplesmente se apalpasse, tocasse, flertasse para entender as diferenças e mesmo se a principio a gente – como sentimento primeiro, instinto mesmo – gostasse ou não gostasse – pouco importa – a gente processasse o sentimento e aceitasse que o humano pode ser tão diferente, tão contrario e pronto. Ponto. Sem adjetivos que colocam um acima do Outro. Sem pré ou pós conceitos que criam discursos que permitem barbaridades. Sem achar que entendeu o que provavelmente é impossível de alcançar porque há um abismo no meio, só assim aceitando o desconhecido, nos estranhando respeitosamente.

O guia entendeu que naquela minha cabeça milhões de sinapses estavam brilhando e então pegou a minha câmera e tirou foto de mim cercada por aquelas estranhas criaturas. Eu que não gosto de estar nas fotos posando de gringa quando revi a foto – meses depois e de volta para o meu mundo de amarelos – adorei: olhei aquela imagem e não tive nenhuma duvida de que ali eu era mesmo a coisa mais estranha, mais diferente e exótica.

A viagem que durou quase sete meses vai virar um documentário que discute mulheres contemporâneas e choque cultural.

O documentário esta sendo financiado coletivamente: para entender melhor o projeto, ganhar prêmios exclusivos e doar – as doações iniciam em R$ 15 – acesse movere.me e embarque junto!

Eliza Capai é jornalista e videomaker. Para ver um pouco de seu trabalho acesse www.elizacapai.com

Imagens do outro mundo


por Gleice Bueno
Fotografia

E porque as imagens tomaram conta de A Florista esta semana… Aproveito para compartilhar Miragens, uma exposição deslumbrante em cartaz no Instituto Tomie Ohtake. Tomei conhecimento da mostra ao ver a foto linda que a @pakalil publicou no Instagram.

http://instagram.com/p/CXaA3/

São 58 obras de arte, de 29 artistas internacionais, que têm em comum produções sobre o universo islâmico, com a diversidade de olhares que toda cultura merece.

E como retratos são uma paixão, o destaque fica por conta das fotografias de Shadi Ghadirian, que produziu imagens inusitadas ao unir o estilo “retrato de estudio”, do final do se. XIX, com objetos modernos do Ocidente.

Miragens fica em cartaz até de 03 de abril, de terça a domingo, das 11h às 20h. É de grátis, mas não tem preço! :)

Noturnos


por Gleice Bueno
Fotografia, flor do dia

Muita gente já deve ter visto, mas quem ainda não foi conferir a mostra “Noturnos”, do fotógrafo Cássio Vasconcellos, pode colocar na agenda.

A expo, que inaugurou o projeto Cidade Galeria, foi prorrogada até 11/03 e é composta por 48 fotografias, em formato 5cmx5cm (adoro!) feitas em São Paulo, Paris, Tóquio e Nova York, entre 1998 e 2004.

As imagens, originais de Polaroids, são exibidas em painéis de 25 m2, e foram instaladas para utilizar o histórico prédio dos Correios e sua arquitetura como moldura. Perde não!

Noturnos. Prédio histórico dos Correios, av. São João, s/n, Vale do Anhangabaú (metrô São Bento), tel. 3227-9461 . Até 26/11. Seg. a Sex., 9h/17h. Sáb., 9h/12h. Grátis.

galeria_aberta | mostra poema instagram


por Gleice Bueno
Fotografia, galeria_aberta, vídeo

Celulares, fotografia e flores

Na mesma semana que herdei o iPhone, fui apresentada ao Instagram, que começava a ganhar adoradores e viciados mundo apple afora. Na verdade, graças ao twitter e facebook, o sucesso foi muito além do mundinho da maçã. Fiquei boquiaberta com as primeiras fotos compartilhadas. Foi mais ou menos como quando vi a primeira imagem feita com a Holga (toy câmera).

O formato quadrado e alguns filtros do aplicativo deixam as imagens com aquele charminho vintage lomográfico que já foi tendência, virou moda e até enjoou. Mas, o Instagram renovou isso tudo. Não estou falando da “popularidade” e nem dos novos filtros que surgem e são rapidamente incorporados pelos usuários, mas dos fotógrafos-revelação.

Descobri que sou muito mais voyeur na rede instagram, do que fotógrafa. Adoro ficar olhando as imagens produzidas por gente que, acho eu, sempre gostou de fotografia, mas não chegava a fazer dela nem hobby, nem forma de expressão. Há também aqueles que andavam preguiçosos e graças ao vício do aplicativo voltaram à ativa. Como a prática faz o mestre, tá bonito de ver.

Noite dessas, o assunto Instagram surgiu enquanto nós floristas conversávamos sobre o site e a proposta de inspirar, motivar o processo criativo e incentivar as pessoas a desenvolverem seus talentos e gostos. Pensamos, ora, temos aqui uma galeria. Vamos convidar os “instangrammers” para fazer parte dela esta semana.

A proposta é construir um poema visual coletivo, a partir da interpretação de uma frase que escolhemos como ponto inicial.

O que você precisa fazer, é simplesmente tirar uma foto e compartilhar no Instagram, Facebook e Twitter colocando na legenda ou no comentário da foto a hashtag #aflorista. Bora?

A frase é:

“Há poesia/ Na dor/ Na flor/ No beija-flor/ No elevador” (Mário de Andrade)

Da Debora Barros, via celular

Da Kakau Gomes, via celular

De Vera Ligia Souza, via celular

De Renata Nascimento, via celular

De Andrea Pasquini, via celular

De Susana Paiva, via celular


  • http://www.tedxamazonia.com.br

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